O Lugar Onde a Ausência Fala

Quarta-feira, 27 de Agosto de 1975

Cheguei atrasado ao encontro com a Dila — e isso, agora que o dia já me cansou a alma, pesa mais do que imaginei de manhã. Não foi um atraso grande, mas foi o suficiente para estragar a exacta pontaria do destino. Ela não apareceu… ou talvez tenha aparecido antes de mim, olhado em volta, suspirado, e ido embora convencida de que eu não viera.

A culpa cai-me no peito como uma pedra morna. Fui eu quem falhou, justo quando o coração ardia por aquele instante simples: vê-la chegar, vê-la sorrir, vê-la existir só para mim por uns minutos. Esperei três quartos de hora, teimoso, a desejar voltar atrás no tempo e recuperar os dez minutos que entreguei ao descuido.

Voltei para casa devagar, como quem regressa de uma pequena derrota. De tarde fui ao café com o meu pai e o meu cunhado, mas a conversa deles parecia vir de muito longe, como se estivesse a ouvi-los debaixo de água. O mundo estava ali, mas eu não estava bem dentro dele.

À noite, surgiu o Benjamim, fiel como um cão de aldeia. Fomos até aos lados da casa da Dila, talvez na esperança tola de que a noite corrigisse o que o dia tinha estragado. Ficamos ali perto de uma hora, sem a ver, só com a lua a espreitar pelas telhas e o nosso silêncio a pensar por nós.

Regressei a casa com a sensação de ter deixado cair algo precioso sem dar por isso.

Há dias que terminam assim: tristes, pouco generosos, quase teimosamente vazios. Mas, mesmo com esta sombra sobre os ombros, guardo uma esperança — amanhã talvez seja diferente. Talvez a vida me dê uma segunda oportunidade para lhe mostrar que o meu coração, apesar das tolices, sabe muito bem para quem bate.


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