Um dia que se move devagar
Terça-feira, 26 de Agosto de 1975
Acordei com o corpo inteiro a lembrar-me que o sono nem sempre é descanso. A cabeça parecia ainda pousada no dia anterior, como se a noite tivesse sido apenas um intervalo curto, um fecho de olhos entre um pensamento e outro. Há dias em que o próprio tempo parece hesitar: não avança, não recua — paira.
De manhã, o Manel apareceu à porta, como faz tantas vezes, com aquela energia dele que nunca parece cansar-se e, imagine-se, perguntou-me se queria ir a pé com ele ao Porto. Obviamente disse-lhe que não, mas que lhe emprestava dinheiro. Pensou melhor e desistiu da ideia. Do nada falou-me da bicicleta, do incêndio, do cheiro a fumo que ainda se sentia na aragem. Eu ouvi-o… mas havia sempre aquele fio de pensamento que puxava para outro lado, para outro nome: Dila.
O Manel observava o mundo como quem quer conquistar qualquer coisa; eu, nesse dia, observava tudo como quem procura sinais. Às vezes basta uma sombra, um eco, um riso ao longe para nos dar a ilusão de que ela pode surgir a qualquer momento.
A tarde correu com a lentidão típica de Agosto. O sol, de tão quente, parecia imóvel. Os miúdos fizeram da rua o seu território: gritos, corridas, uma bola que insistia em bater no muro de alguém que não queria barulho — tudo normal, tudo igual. E no entanto, em mim, tudo se movimentava com uma espécie de calma nervosa, um coração que batia mais fundo do que rápido.
Fui até ao Monte, passei pelo caminho onde costumo encontrar-me com a Dila, mas nem sinal dela. Parei sem decidir parar — o corpo às vezes toma decisões que o pensamento só entende depois. Olhei a estrada de terra, as silvas que crescem sem pedir licença, o recorte do muro do quintal. Nada. Só o silêncio quente do fim da tarde. E ainda assim… senti qualquer coisa. Como se a ausência dela tivesse, por si só, uma presença.
Há quem diga que a saudade só existe depois de perdermos. Não é verdade. A saudade existe também antes — existe na espera, existe na vontade, existe naquela estranha certeza de que gostar de alguém nos torna vulneráveis até ao vento.
Ao anoitecer, o céu estava limpo, demasiado limpo para tanta inquietação cá dentro. Sentei-me no degrau da porta, no meu posto habitual das noites mais pensativas, e fiquei ali a ver o movimento lento das luzes que se iam apagando pelas casas. S. Pedro da Cova a adormecer é um espectáculo calmo, quase sagrado. Faz-nos entender o pequeno lugar que ocupamos no mundo — e mesmo assim, como é enorme aquilo que carregamos no peito.
Pensei nela. Não com a urgência de ontem, mas com uma serenidade nova, quase madura. Como se o meu coração começasse finalmente a aprender que existem dias de encontro e dias de pausa, e que ambos fazem parte da mesma história.
Terminei o dia assim: com o corpo parado e o pensamento a caminhar à frente, como quem segue uma luz ao longe. Amanhã talvez traga novidades, ou talvez traga apenas mais um dia igual. Mas seja o que for, eu estarei lá, com esta esperança que insiste em sobreviver — mesmo quando o tempo decide mover-se devagar.
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