A espera compensa sempre
Segunda-feira, 25 de Agosto de 1975
A manhã começou com o Manel a surgir à minha porta, todo entusiasmado com uma gaiola que tinha construído. Fui vê-la — obra de artista improvisado, engenho de quem precisa sempre de fazer qualquer coisa com as mãos. Depois regressei a casa, como quem volta ao ponto de partida sem grande história para contar.
À tarde ele voltou, desta vez a pedir-me a bicicleta emprestada para ir ver um incêndio que lavrava nos montes próximos. Há sempre um toque de aventura no Manel, mesmo quando o cenário é fumo e pressa.
Mas o que realmente marcou o dia aconteceu entre estes pequenos episódios: a Dila.
Quando cheguei a casa de manhã, uma das minhas irmãs disse-me que ela tinha passado por ali — e que voltaria a passar. O coração começou logo a bater como quem se ajeita numa cadeira antes de ouvir uma grande notícia. Esperei. Esperei tanto que a espera se transformou em dúvida, depois em inquietação, depois naquelas pequenas suposições que só fazem sentido a quem ama: talvez já tivesse ido para casa, talvez fosse levar o almoço ao pai, talvez tivesse mudado de caminho.
Resolvi não ficar preso à porta. Fui chamar o Manel e partimos para o Centro de Saúde onde o pai dela trabalha. Havia naquele caminho um rumor de expectativa, como se o próprio ar estivesse à espera do passo dela.
E apareceu.
Aproximei-me dela com um sorriso contido, ainda a sentir o coração a bater como tambor.
— Olá, Dila… — disse, meio atrapalhado.
— Olá, António… — respondeu ela, ligeira, mas com aquele brilho nos olhos que só ela sabia dar.
Respirei fundo, tentando fazer o nervosismo calar-se.
— Estava ansioso para te ver — confessou, baixando o olhar para os próprios pés.
— Eu volto sempre — disse ela, quase num sussurro, e desviou o cabelo do rosto. — Mas hoje pensei em passar depressa, não te queria incomodar.
— Nunca me incomodas — Sorri, sentindo-me mais leve. — Sabes, ontem estava a pensar nas palavras que trocamos na última vez que estivemos juntos… fiquei a rever cada uma na minha cabeça.
— Eu também — disse Dila, com um sorriso que parecia guardar segredos. — Às vezes é só isso que precisamos, não é? Pensar nas pequenas coisas.
Olhei-a, e naquele instante tudo parecia simples, mesmo com o calor e o fumo do incêndio ao longe.
— Então… vais ver o incêndio? — perguntou, tentando soar casual.
— Não hoje — respondi, com um ligeiro riso. — Mas conto-te tudo depois, se quiseres.
— Quero sempre saber — disse ela, e a sua voz soou mais firme do que esperava.
Por um momento, ficamos em silêncio, apenas a observar o movimento do mundo à nossa volta. Depois, ela inclinou-se ligeiramente:
— Até amanhã, António, tenho de ir embora.
— Até amanhã, Dila — respondi, sentindo que aquele “até amanhã” carregava mais do que palavras.
E assim nos despedimos, sabendo que o próximo encontro viria, mas sem pressas, sem urgência.
No regresso a casa, pensei na tarde que acabara de viver: a espera que parecia interminável tinha-se transformado numa certeza delicada. Nem sempre são os grandes acontecimentos que mudam o dia; às vezes, basta um simples encontro, um diálogo breve, um sorriso verdadeiro. E hoje, foi isso que salvou tudo.
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