Um Dia que Andou à Deriva
Domingo, 24 de Agosto de 1975
A manhã levou-me para o rio Couce, rodeado pela família inteira, como se todos tivéssemos sido empurrados para a mesma margem por um destino preguiçoso. Era um daqueles dias em que o corpo se move, mas a alma fica a boiar — talvez pela monotonia, talvez por um certo desprendimento que começa a instalar-se quando o pensamento está mais longe do que perto.
A água corria com a serenidade que eu não tinha, e enquanto todos conversavam, riam ou discutiam pequenos nadas, eu deixava-me ficar a observar o brilho do sol na corrente, como se ali estivesse uma resposta que ainda não sabia formular. Só regressamos no fim da tarde, cansados, cheios de sol, mas com aquela sensação de que nada verdadeiramente mudou — como se o dia tivesse sido um círculo perfeito: começou e terminou no mesmo lugar.
Depois do jantar fui com o meu pai e o meu cunhado ao café Santiago, o mesmo de sempre. O ambiente tinha aquele cheiro a tabaco velho e madeira gasta que parece guardar histórias que ninguém conta. Encontramos um conhecido que se juntou a nós para umas jogadas de bilhar. Fizemos seis — não mais, não menos — como se o próprio jogo tivesse decidido quando terminar. Viemos embora sem glória nem derrota, apenas embalados por uma normalidade que quase adormece.
Mas por baixo dessa calma havia outra coisa a mexer-se:
amanhã, espero ver a Dila. E aí, sim, a monotonia desfaz-se toda. Tenho tanto para lhe dizer que até o silêncio de hoje parece ter servido apenas para guardar espaço para ela.
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