O Dia que Ficou à Porta

Sábado, 23 de Agosto de 1975

Acordei cedo, mas fiquei na cama, agarrado a um livro como quem se agarra a uma jangada depois de uma mudança brusca de maré. Ler era o meu modo de manter o pensamento quieto, ou pelo menos distraído, enquanto o corpo recuperava da viagem e do vazio que a partida deixara no dia anterior.

Quando me levantei, o Benjamim apareceu à porta — sempre ele, fiel como um relógio que sabe as horas do meu silêncio. Disse-me que mais tarde que viria com um gira-discos, como se a música pudesse arrumar aquilo que o coração ainda tinha espalhado pelo chão. E veio mesmo: instalou-se em minha casa até perto do meio-dia, trazendo consigo esse modo meio trapalhão, meio luminoso, que nunca deixa o dia cair.

À tarde voltou. Não havia urgência em nada — apenas o conforto de quem se senta sem perguntar porquê. Ficamos ali, a deixar as horas deslizarem pela tarde adentro, até que, perto do fim do dia, ele se foi embora outra vez, levando consigo o último som da agitação e devolvendo-me ao meu próprio silêncio.

Hoje pensei que iria ver a Dila. Acreditava nisso com aquela esperança teimosa que só os quinze anos conseguem justificar. Mas houve um impedimento, uma daquelas pequenas muralhas que a vida levanta sem aviso. Fiquei com essa expectativa suspensa, como um pássaro que recua antes de levantar voo.

Agora resta-me segunda-feira para procurar voltar a vê-la. E, apesar de tudo, o coração já marcou presença. Ele chega sempre antes de mim.


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