Partir também é sofrer
Sexta-feira, 22 de Agosto de 1975
Acordei cedo, mas não era um simples acordar — era aquele despertar pesado, em que o corpo obedece e o coração fica para trás. Sabia que era dia de partir. E, talvez por isso, cada movimento ganhou o peso de um adeus.
Fui ao quintal da minha avó buscar maçãs. Parecia um gesto banal, mas não era: aquele quintal sempre me acolheu como um velho amigo, e naquele instante senti que cada maçã que colhia era um pedaço de infância que eu deixava pendurado nos ramos. As árvores murmuravam o seu silêncio antigo, e a terra tinha aquele cheiro de despedida que só quem parte reconhece.
Antes de entrar no carro, fiz uma espécie de romaria íntima:
o fontanário centenário que tantas vezes me viu passar, a eira onde a memória guarda o chiar dos carros de bois a transportar as espigas para a eira e a alegria das desfolhadas, a Quinta do Dr. Leitão com o seu mistério de propriedade grande demais para nós, o Alfaiate Augusto sempre curvado sobre tecidos que pareciam ter vida própria, e as irmãs Celestinas, sombras bondosas de um quotidiano que agora ficava suspenso no tempo.
Oh, quanta saudade fica para trás… É como se cada lugar me dissesse baixinho: “volta”.
Com tudo no carro, despedimo-nos dos que ficavam. Não sei se foi o choque do momento ou a pressa de não sofrer, mas as palavras saíram curtas, engasgadas. A estrada levou-nos o dia inteiro, serpenteando por serras e memórias que se colavam ao vidro.
Ao fim da tarde chegamos a casa. A rotina voltou, mas ainda desfocada: passei pela casa do Manel onde trocamos breves palavras. Mais tarde apareceram ele e o Benjamim, como se a normalidade tentasse recuperar o seu lugar — mas eu continuava um bocado dividido entre onde estava e onde tinha ficado.
Nesse dia, aprendi que partir não é ir: é deixar. E isso dói sempre um pouco mais.
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