Um dia na aldeia

Quinta-feira, 21 de Agosto de 1975

Acordei cedo, nessa hora em que o sol ainda não se mostra inteiro, mas já se faz sentir como uma promessa ardente. Na Beira Interior, em Agosto, não há orvalho a pintar a manhã — há calor, puro e directo, como se a terra respirasse fogo desde o amanhecer. Saí com o meu pai, e a aldeia ia despertando aos poucos, não pela frescura, mas pelos sons que lhe são tão antigos como os muros de granito.

Saí com o meu pai, e a aldeia parecia acordar connosco. As casas baixas, de telha escurecida, iam ganhando cor devagar, como se o sol tivesse medo de lhes tocar de uma só vez.

Primeiro, o galo — dono de todos os relógios do lugar — a rasgar o silêncio com o seu cantar decidido. Depois, o cacarejar inquieto das galinhas, sempre apressadas, sempre a discutir qualquer coisa entre si. Ao longe ouvia-se o bater compassado de um balde num poço — alguém já começara a faina do dia e quase em simultâneo, o bater lento das carroças puxadas pelas vacas, a madeira a ranger sob o peso do arado e do trabalho que as esperava. Era um som firme, quase ancestral, capaz de atravessar gerações. As aves, ainda meio escondidas nas árvores, ensaiavam os primeiros acordes do dia, e entre elas o rouxinol deixava aquele canto cristalino que parece sempre vir de um sítio mais alto do que a própria árvore.

Quando regressamos, procurei o fundo do quintal da minha avó. Lá estava a cama de rede que balançava entre duas oliveiras ramalhentas com troncos enrijecidos pelo tempo, e o ar estava pesado, quente, a cheirar a frutos maduros, palha seca e qualquer coisa da infância que não sei explicar. Deitei-me ali, deixei que o calor me abraçasse sem cerimónia, e fiquei a ouvir o ruído distante dos campos: o roçar dos arados na terra, as vozes dos homens que começavam a faina, o mugido espaçado das vacas a serem guiadas para mais um dia de labuta. Há memórias que se guardam no corpo, não no pensamento — esta é uma delas.

À tarde fui para as termas de S. Pedro do Sul. As pedras antigas ferviam quase tanto como a água, e a família, claro, trouxe consigo aquela capacidade de criar pequenos atritos, discretos, quase invisíveis, mas suficientes para me fazer desejar um canto só meu. Nada de grave, apenas as fricções naturais de quem vive demasiado perto num dia demasiado quente.

À noite, já com a aldeia envolvida num calor macio que nem o escuro consegue arrefecer, deixei escapar o nome da Dila. Uma comparação simples, daquelas que surgem sem pedir licença: a jovem de catorze anos que anda por casa da minha avó parece ainda presa ao mundo infantil, enquanto a Dila, com treze, tem um brilho diferente — uma maturidade tímida, mas acesa, como quem aprendeu a ler o mundo antes do tempo.

Agora escrevo à luz trémula de uma vela, o sono a puxar-me para baixo, enquanto lá fora os grilos iniciam o seu cântico nocturno, esse concerto teimoso que embala toda a aldeia. Agosto oferece isto: sons que ficam para sempre guardados na memória, como a marca de um verão que nunca se apaga.


« Página anterior / Índice / Página seguinte »