"Santa Cruz da Trapa" regresso à meninice

Quarta-feira, 20 de Agosto de 1975

Hoje levantei-me muito cedo para o passeio combinado, ainda envolto naquela frescura húmida que as madrugadas oferecem aos que partem. A viagem durou duas horas e meia no velho Opel Rekord do meu pai, a rolar firme pelas curvas e contra-curvas, subindo e descendo serras que pareciam não ter fim. Mas nenhuma dessas voltas diminuiu a emoção que crescia dentro de mim — o regresso à aldeia da minha meninice.

Santa Cruz da Trapa recebeu-nos como um livro antigo que se abre sem pressa. À entrada, do lado direito, o Solar brasonado ergueu-se como sentinela de pedra, a dar as boas-vindas aos que regressam. Mais adiante, do lado esquerdo, a igreja altaneira vigiava a aldeia, e logo depois o largo da feira estendia o seu espaço familiar, seguido da Casa do Povo. Por detrás dela, a escola primária, onde vivenciei parte da inocência e uma mão-cheia de aventuras que ficam agora guardadas em silêncio. O Calvário, coração da aldeia, surgia com os correios, o café que acolhe os viajantes da carreira e o pequeno coreto onde, aos domingos, a banda toca e o povo se junta na esplanada aberta para o jardim.


Quando chegamos à casa no Lugar das Eiras, vi uma jovem muito bonita que estava na casa onde iríamos ficar. Soube pouco depois que era minha prima, filha da tia Ilda. À uma hora fomos todos almoçar — ela também — e senti uma estranha familiaridade, como se aquela presença inesperada trouxesse um brilho diferente ao dia. Durante a tarde, fiquei com ela e com as minhas irmãs, apenas conversas simples, risos leves, o tempo a passar como água corrente. No fim da tarde recolhi-me ao pequeno quarto que me foi destinado, pronto para escrever.

Agora, aqui sentado, escrevo com a luz natural a entrar pela janela. Estou a mais de cem quilómetros do meu lar e da minha fiel companheira, mas nem esta distância, nem as serras que deixei para trás, conseguem apagá-la do pensamento. O seu nome — Dila — permanece escrito na minha memória, firme como a raiz de uma árvore antiga, lembrando-me que mesmo quando o corpo se afasta, o coração encontra sempre o caminho de volta.


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