Silêncios e ecos de ausência

Segunda-feira, 18 de Agosto de 1975

De manhã, o Manel e o Benjamim vieram a minha casa. A sua presença trouxe alguma leveza, mas o peso do que se avizinhava pairava sobre nós, silencioso e inevitável.

À tarde, eu e o Benjamim vestimos os Kimonos para uma sessão fotográfica a simular uma luta. O ritual de nos prepararmos e a formalidade das poses pareceram pequenas distrações, tentativas de encontrar normalidade num dia que já se mostrava pesado. Mais tarde, regressamos a minha casa com o meu pai, e ali ficamos numa espécie de refúgio, um gesto de cuidado e de resistência contra a tristeza que se insinuava.

No fim da tarde, o choque instalou-se de forma definitiva. Fui ao funeral do meu infeliz colega, e o grito dilacerante da mãe reverberou na minha mente, atravessando-me como um vento gelado. Nada se podia fazer, e a impotência diante da dor alheia acentuava o peso da própria presença na vida, mostrando-me que há acontecimentos que ninguém consegue controlar.

Desejava, apesar de tudo, ter a Dila ao meu lado, talvez numa tentativa inconsciente de equilibrar a tristeza com a sua presença, mas era uma impossibilidade. A sua ausência fez-se ainda mais pesada naquele cenário, lembrando-me que, mesmo nos momentos de dor extrema, o que se ama permanece distante, mas constante, guardado no pensamento e no coração.

O dia terminou envolto num silêncio denso, entre o ritual das pequenas tarefas, o choque da perda e a constante lembrança dela, que iluminava a mente e, de alguma forma, amenizava a tristeza com a doçura da esperança.


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