Dia funesto
Domingo, 17 de Agosto de 1975
De ontem para hoje, como já era de esperar, pouco dormimos. A manhã trouxe-me dores nas costas, lembrança viva das cotoveladas “oferecidas” pelo meu colega Manel durante a noite. Pequenas marcas físicas de um cansaço que, de algum modo, prenunciava o peso maior que ainda estava por chegar.
À tarde, uma colega veio ter comigo com uma notícia que me gelou o coração: um colega nosso tinha morrido de acidente de motorizada. O mundo pareceu parar por um instante. Corri imediatamente ter com o Benjamim e o Manel para lhes contar. Ambos reagiram da mesma maneira que eu: incredulidade, silêncio, olhos que tentavam compreender algo que não cabia na nossa juventude.
No fim da tarde, a verdade impôs-se. Os pais do Manel e do Benjamim apareceram para confirmar o que já pressentíamos, trazendo-nos a triste notícia que transformou o espaço familiar da tenda num lugar de luto silencioso. Desarmamos a tenda e regressamos a casa, com o peso da ausência de Orlando. Mais tarde, o Benjamim veio a minha casa para juntos prestarmos a última homenagem ao nosso colega. A dor estava ali, simples, silenciosa, e mesmo os planos mais desejados pareciam insignificantes diante da realidade da morte.
Antes desta notícia, tinha decidido ir a casa da Dila. Mas a vida mostrou que há momentos que não nos pertencem, que tudo se coloca num espaço maior e que certas presenças — a dela, a minha própria — são postas de lado pela grandeza de acontecimentos que não se podem ignorar. A ausência dela ficou ainda mais viva na minha mente, lembrando-me que, mesmo quando o coração deseja, a vida impõe as suas pausas. Este jovem, Orlando, deixou o mundo de guerra e de terror para entrar num lugar de silêncio, de paz que nós ainda não compreendemos plenamente.
O dia terminou com a consciência de que, por mais que nos aproximemos de quem amamos, há forças exteriores, silenciosas e inevitáveis, que nos lembram da fragilidade da vida e da urgência de valorizar o que realmente importa. A Dila permaneceu no meu pensamento, agora misturada à tristeza e à contemplação daquilo que é efémero e precioso.
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