A tenda, o silêncio e o pensamento nela

Sábado, 16 de Agosto de 1975

Hoje de manhã levantei-me às cinco e meia, ainda envolto na penumbra do sono, preparando tudo para o acampamento. O coração batia ligeiro com a excitação do que estava por vir, mas, como sempre, outro pensamento não me deixava descansar, como uma sombra doce que acompanhava cada batida do meu coração. Pouco depois, chegou o Benjamim e partimos directamente para casa do Manel, ansiosos e carregados de expectativas.

A viagem durou duas horas e meia, e cada quilómetro parecia aproximar-nos da liberdade, do vento e do sol. Montamos a tenda e, por volta das onze, comecei a preparar o que iríamos comer. O simples acto de cozinhar parecia envolver-se num silêncio quase sagrado, interrompido apenas pelos risos e comentários dos meus colegas, pequenos contrapontos à presença imaginária do meu fantasma.

Durante toda a tarde ficamos na tenda, entregues ao descanso e à preguiça que só a ausência de preocupações permite. O tempo passava preguiçoso. No entanto, a minha mente permanecia vigilante, voltando sempre à Dila, a imaginar se estaria a olhar para o céu, a pensar em algo semelhante, a sentir qualquer coisa que se aproximasse do que eu sentia.

No fim da tarde, o pai do Manel veio à nossa tenda ver como estávamos. Jantamos juntos, e o simples acto de comer e conversar ganhou um tom de ritual, marcado por uma camaradagem silenciosa que contrastava com a intensidade do que se passava dentro de mim. Até à noite ficamos juntos, desfrutando do conforto da companhia e da segurança da tenda montada. Entre uma garfada de estufado e um gole de água fresca da nascente, senti uma leveza que só a união dos amigos pode trazer, mesmo quando o pensamento permanece noutro lugar.

Apesar de estar fora de casa, com o diário ao lado, a Dila estava presente na minha mente, suave e constante, lembrando-me que nenhum lugar, nenhum tempo, pode apagar aquilo que se guarda no coração. Considero este dia um dos melhores da minha vida, não só pelo acampamento, mas porque, mesmo na distância, consegui manter viva a presença dela, que ilumina tudo o que faço.


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