Preparativos e lembranças silenciosas
Sexta-feira, 15 de Agosto de 1975
De manhã, nenhum dos meus colegas apareceu à minha porta. O silêncio parecia ainda mais pesado do que nos dias anteriores, e a casa parecia grande demais para um corpo só. Cada minuto arrastava-se, e mesmo as pequenas tarefas que me cercavam pareciam irrelevantes perante a presença ausente dela, que pairava na minha mente, constante e intocável.
À tarde, dei os parabéns ao Benjamim pelos seus 17 anos. O gesto, simples e breve, trouxe alguma leveza, mas a minha atenção raramente permanecia no presente. Junto dele e com o Manel, passamos a tarde a organizar o que seria necessário para o acampamento de amanhã. Empacotamos e conferimos listas, mas cada gesto, cada objecto manuseado, era apenas um pretexto para adiar a espera pelo instante mais importante: a possibilidade de pensar nela, de escrever-lhe, de sentir que de algum modo ela continuava presente.
Os meus pais, com a minha irmã mais nova, partiram para um passeio de três dias, deixando-me sozinho em casa. O silêncio voltou, mas desta vez carregado de uma sensação diferente: a liberdade era acompanhada de uma ausência que não podia preencher. E assim, enquanto preparava a mochila e verificava cada detalhe para o acampamento, decidi que não poderia esquecer-me da Dila. Levarei o diário comigo, a única ponte entre os meus dias e os pensamentos que a ela se prendem.
O dia terminou com uma mistura de cansaço e expectativa, os planos do amanhã a ocupar o espaço da mente, mas sempre com o fio invisível da sua ausência a lembrar-me que, por mais que a aventura se aproximasse, nada substituía o que de verdadeiramente queria: vê-la, ainda que apenas em pensamento.
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