Permissões e portas fechadas

Quinta-feira, 14 de Agosto de 1975

De manhã, o Manel apareceu com a notícia de que o pai lhe dera autorização. Por um instante, pensei que algo poderia finalmente mudar, que talvez o dia nos trouxesse a promessa de encontros que há tanto esperava.

À tarde, vagueamos eu e o Benjamim entre compras e pequenas tarefas, mas tudo parecia secundário. O barulho das ruas e o movimento das lojas passavam por mim como uma névoa distante, porque a minha mente estava presa àquilo que mais desejava: encontrar a Dila. Cada passo, cada gesto, parecia apenas prolongar a espera, e o dia arrastava-se com uma lentidão que pesava no peito.

No fim da tarde, fomos à Academia assistir à última aula do mês, mas mesmo a sensação de aprendizagem e de rotina se tornava irrelevante. O verdadeiro vazio estava na ausência dela. Depois do jantar saímos na direcção da casa da Dila, como sempre, com a esperança de a ver, de sentir algo que confirmasse que o mundo ainda tinha cores. Mas ao chegar, encontrei portas fechadas e silêncios profundos. Toda a família já dormia, e o quarto que eu imaginava cheio de vida estava apenas inanimado.

A frustração instalou-se com suavidade, quase resignada. Não  era tristeza aguda, apenas uma desilusão cansada, como se a esperança tivesse perdido um pouco da sua força. Fiquei a sentir que, por mais que planeasse, por mais que esperasse, a presença dela continuaria a escapar-me, silenciosa e distante. Com passos lentos, afastamo-nos, levando comigo a certeza de que o dia terminava sem nada que realmente importasse.

Assim terminou o dia, marcado pela contínua ausência dela, lembrando-me de que nem sempre os desejos encontram o caminho que lhes é próprio.


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