Entre aborrecimentos e vigilâncias silenciosas

Quarta-feira, 13 de Agosto de 1975

De manhã, o Manel e o Benjamim foram comigo a casa da minha irmã. Sentamo-nos à mesa, entregues aos petiscos e pequenas alegrias da manhã, rindo-nos das trivialidades que tornavam o momento leve e quase despreocupado. Por um instante, o mundo parecia simples, como se nada mais pudesse perturbar-nos.

À tarde, fui a casa do Manel. A caminho, deparei-me com um pequeno aborrecimento com um dos seus vizinhos, algo que me irritou e trouxe uma sombra momentânea sobre o dia. Mas a companhia do Manel e do Benjamim trouxe-me de novo algum alívio. Seguimos juntos até à casa do Benjamim, e depois regressamos a minha casa, aguardando o momento de falar com o pai do Manel sobre a tão desejada autorização para o acampamento. A conversa foi clara: o pai dele não permitia, e a negativa caiu sobre nós como uma pedra pesada, fazendo-nos adiar os planos e prolongar a frustração.

À noite, o Benjamim acompanhou-me a casa da Dila, sempre com a mesma intenção de a ver. Mais uma vez, vi com tristeza que não seria possível; a Dila e o pai estavam fora. Apenas a irmã e o irmão menores estavam na cama — a irmã com 12 anos, o irmão com quatro ou cinco — e este pequeno vislumbre da vida familiar deles trouxe-me uma mistura de curiosidade, inquietação. O meu coração oscilava entre a esperança e a consciência de que a presença dela continuava inatingível.

Assim terminou o dia, entre pequenas alegrias, aborrecimentos, negações e a vigilância silenciosa de uma vida que permanecia à distância, sempre a recordar-me do quanto a ausência da Dila se faz sentir.


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