Esperas e partidas anunciadas
Terça-feira, 19 de Agosto de 1975
De manhã, o Manel veio a minha casa com uma notícia inquietante: alguém tentara penetrar na sua casa durante a noite. A sensação de vulnerabilidade pairou sobre mim, um pressentimento de que o mundo lá fora podia ser tão imprevisível quanto distante das pequenas certezas que buscamos.
À tarde, ele foi a casa da Dila, com a intenção de ver a irmã bébé. Naturalmente, acompanhei-o, embora não pudesse ou tivesse intenção de entrar. Esperei, pacientemente, por mais de uma hora, mas ele não apareceu. Estando eu tão perto, cada minuto prolongava a ausência dela, e a esperança foi-se desvanecendo lentamente. No fim, não tive outro remédio senão regressar para casa, carregando comigo a sensação de frustração e o eco do tempo perdido, cada passo rumo a casa marcado pelo silêncio da espera.
No fim da tarde, soube que amanhã partirei para uma viagem de três dias à aldeia onde morei em miúdo com a minha avó paterna. Uma mistura de nostalgia e expectativa percorreu-me o corpo. Como sempre, não esquecerei o diário: será o meu elo com o presente e, sobretudo, com a Dila, que continua a permanecer no meu pensamento, constante e distante, iluminando cada gesto e lembrança mesmo à distância.
O dia terminou envolto numa quietude melancólica, entre esperas frustradas e a antecipação de uma partida, lembrando-me de que, por mais que o mundo nos afaste do que desejamos, há sempre uma ponte invisível que nos mantém ligados a quem amamos.
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