O Vazio da Tua Ausência
Quinta-feira, 24 de Julho de 1975
O dia arrasta-se como uma sombra demasiado longa, e eu vagueio pelo tempo sem rumo. Nem parecem férias; a apatia é um manto pesado que me cobre os ombros e sufoca os sentidos. O mundo perdeu cor, e cada pensamento dissolve-se numa névoa em que nada mais importa. A tua falta é um grito silencioso que ecoa dentro de mim, e a agulha do meu coração gira sem direção, desnorteada, perdida, procurando-te em cada canto onde não estás.
Sento-me à janela e olho a rua deserta, esperando que uma sombra traga a tua presença. Mas tudo o que vejo é o reflexo do meu próprio vazio. Cada lembrança tua — um sorriso, um gesto, um olhar — inflama-se na minha mente como uma chama que me queima por dentro, lembrando-me que o mundo continua, indiferente à minha espera. A música que ouço transforma-se em suspiro, o ar que respiro é insuficiente, e cada pequeno som parece a distância que nos separa.
A solidão torna-se quase física: sinto o peso da ausência nos ombros, na garganta, nas mãos que nada podem segurar. O desejo de te ver é um nó que se aperta no peito e não me deixa respirar. Pergunto-me se tu sentes o mesmo, se o teu coração se inquieta, se os teus dias também se estendem cinzentos quando não me encontras.
Nada preenche este vazio. Só a tua presença poderia fazê-lo. E assim, o dia passa lento, uma sucessão de horas que parecem minutos quando te penso e séculos quando não estás. O amor que sinto por ti é meu e só meu, mas também é o que me arrasta, sem que eu consiga fugir, numa tempestade silenciosa de saudade e desejo.
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