Ausência que consome
Quarta-feira, 23 de Julho de 1975
Hoje o dia arrastou-se lento, com a casa a fechar-me os horizontes. O silêncio era pesado, quase sufocante, e cada sombra nas paredes parecia prolongar a ausência da Dila. Quando o Benjamim chegou, trazendo consigo os patins e a sua presença costumeira, uma pequena faísca de vida acendeu-se na tarde. Conversamos, rimos, e durante umas horas o mundo ganhou contornos mais suaves, menos esmagadores.
Mas, como já era de esperar, a Dila não apareceu. E a ausência dela é como um vazio que nada consegue preencher. Sinto uma dor silenciosa no peito, um aperto que não se dissolve, uma saudade que me consome. Cada minuto sem vê-la prolonga a inquietação, e a mente recai sempre sobre ela, sobre o brilho do seu olhar, o riso que ilumina tudo, o calor que me falta. É a Dila que dá sentido aos meus dias; sem ela, sinto-me perdido num espaço frio e cinzento, navegando entre o desejo e a frustração.
A verdade é simples, e sinto-a com clareza cruel: amo-a. Amo-a com uma intensidade que me confunde, que me prende a uma esperança permanente e me impede de encontrar descanso. Hoje, mais do que nunca, percebo que ela é a razão de tudo o que faço, o motivo pelo qual o mundo ainda tem cor. Cada instante de espera, cada suspiro de saudade, é um lembrete de que a minha vida sem ela não tem sentido.
A tarde passou-se assim, entre a companhia amiga do Benjamim e a presença ausente da Dila, com o coração a oscilar entre a alegria e a dor, entre o conforto da amizade e o vazio do amor que clama por resposta. É nesta mistura amarga que se desenrola o meu dia, e é com este sentimento profundo que termino estas linhas, desejando apenas que o amanhã traga algum sopro dela, algum instante que me devolva a vida.
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