Ecos da Solidão

Terça-feira, 22 de Julho de 1975

O dia passou rápido, demasiado breve para conter a minha inquietação. A manhã foi um espaço vazio, apenas a minha própria companhia a acompanhar-me, ecoando nos cantos da casa. A solidão, densa e insistente, lembrava-me de cada instante distante daquela que ilumina os meus dias, e essa distância doía mais do que qualquer ferida visível.

À tarde, a visita do Benjamim trouxe-me um refúgio temporário. Pedi-lhe o gravador emprestado e deixei-me afogar nas melodias, cada nota uma pequena cura para o coração apaixonado que insiste em sofrer. A música tornou-se a minha terapia, um balsamo, uma ponte ténue entre o silêncio da minha solidão e o calor que ela representa na minha vida. Cada acorde parecia sussurrar palavras que eu não ousava pronunciar, lembrando-me que ainda havia beleza mesmo na ausência.

À noite, enquanto ia com o meu pai ao café, o acaso cruel apresentou-me a irmã da Odília no quintal. Creio que ela me tenha visto, e por um instante senti o mundo inteiro estreitar-se naquele olhar suspeito e fugaz. O vazio da minha espera tornou-se mais intenso, mas a centelha de esperança, teimosa, persistiu.

Mesmo no coração da solidão, ainda guardo a certeza de que o futuro me trará momentos em que a distância se tornará apenas uma memória.

O amor, penso, sempre encontra um caminho.


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