O Retrato Invisível da Dila

Segunda-feira, 21 de Julho de 1975

Hoje, com o dia rendido à solidão e à companhia breve do Manuel e do Benjamim, dediquei-me, em silêncio, a observar o que até então permanecia apenas na memória: a Dila. A conclusão de um pretenso estudo que andava a fazer dela não se limitou à superfície; percorri cada gesto, cada nuance, tentando decifrar a combinação delicada do corpo, da mente e da alma que me prendia.

Fisicamente, ela é uma presença leve, quase etérea. O contorno do seu rosto, o brilho discreto dos olhos azuis que parecem guardar mundos inteiros, a postura serena que não se impõe mas que dominava o espaço — tudo nela revela equilíbrio e naturalidade. O movimento das mãos, a forma como gesticula, a maneira de inclinar a cabeça enquanto pensa, tornava-se poesia em silêncio, quase hipnotizante. Tudo isto num corpo de ninfa prestes a transformar-se numa graciosa borboleta.

Mentalmente, Dila irradia uma clareza calma, uma inteligência que não se apregoa, mas que se insinua nos detalhes: nas respostas que oferece, nas perguntas que formula, na curiosidade contida mas constante pelo mundo que a rodeia. É uma mente alerta, capaz de saltar entre a lógica e a intuição, de perceber mais do que diz, de sentir mais do que mostra.

Emocionalmente, ela é um enigma encantador: sensível sem fragilidade, firme sem dureza, generosa sem ostentação. A sua presença evoca confiança e inquietação ao mesmo tempo; uma chama que acende um mundo de sentimentos dentro de quem a observa. É impossível não se sentir tocado, nem sequer ao longe, pela sua intensidade silenciosa, pelo modo como consegue existir sem esforço, mas deixando uma marca indelével em tudo e todos à sua volta.

Hoje, ao escrever estas linhas, percebi que não se tratava apenas de compreender a Dila, mas de reconhecer a própria necessidade que tinha de a estudar, de a sentir, de a guardar em palavras antes que o tempo levasse a clareza da memória. E assim, entre o dia que se perdeu em tarefas e a tarde passada a observar o mundo através de olhos próprios, a Dila permaneceu, inteira e intocável, na minha imaginação e no meu coração.




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