O Dia sem Rumo
Domingo, 20 de Julho de 1975
Hoje o tempo não andou para a frente. Ficou parado comigo, como um cão fiel mas sem saber o que fazer ao dono. Acordei sem pressa, sem bússola, sem aquela inquietação boa que às vezes me empurra para a rua só para ver se a vida me surpreende. Hoje não houve surpresas. Houve só… existir.
Fiquei a vaguear pela casa como quem anda perdido numa estação de comboios sem horários. A cabeça enchia-se de ideias soltas que nunca chegavam a ser planos — pequenas nuvens a formar-se e a desfazer-se antes de chover. Pensava na Dila, no futuro, em nada… tudo misturado numa sopa morna. E eu ali, a olhar o vazio como quem tenta ouvir música no silêncio.
As emoções, essas, hoje decidiram fazer coreografia própria. Nada de suave: um bailado descompassado que me puxava para dentro, obrigando-me a sentir demais. Não sei se é cansaço, se é ansiedade, se é só ser adolescente — essa doença passageira e ao mesmo tempo eterna. Mas os pensamentos vinham afiados, torturavam como se quisessem ensinar-me qualquer coisa que ainda não estou pronto para saber.
E eu? Deixei-me ir.
Não lutei, não fugi, não tentei sequer entender. Apenas vivi este dia sem forma, este domingo sem calendário. Às vezes é assim: o corpo fica quieto e a alma vagueia pelos corredores todos da casa, até pelos que ainda não existem.
Acabo o dia com aquela sensação estranha de ter desperdiçado horas… mas ao mesmo tempo sentir que precisava mesmo disto. Um dia suspenso. Um interregno. Como se a vida estivesse a respirar fundo antes de me empurrar para o que vier depois.
Amanhã talvez acorde mais claro.
Hoje, fui só neblina. Mas até a neblina tem o seu encanto — ou pelo menos tento convencer-me disso, antes que o coração me pregue outra partida.
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