Entre Olhares e Sussurros
Sábado, 19 de Julho de 1975
A manhã trouxe consigo a calma do trabalho manual. Ajudar o meu pai a construir um capoeiro foi quase uma meditação em madeira e pregos, até que, no meio do pó e do cheiro a terra revolvida, vi a Odília e a irmã. Um instante de luz que partiu a rotina do dia.
Lá estava ela, com o ar ligeiro das manhãs de férias, o cabelo solto a dançar no vento. Um passo meu, outro dela, e de repente o mundo parecia feito só de nós dois.
— Olá Dila — disse, quase tímido, com a voz a falhar.
— Olá António — respondeu, ligeira, com um sorriso que me fez esquecer o que era respirar devagar.
Ficamos ali, a olhar-nos, cada palavra suspensa, carregada de pequenos gestos de ternura que só nós sabíamos decifrar.
— Então… as férias estão a correr bem? — perguntei, a tentar soar natural, mas o nervosismo traía-me a voz.
— Estão… — respondeu ela, inclinando ligeiramente a cabeça, com um riso tímido, quase secreto. — E tu? Tens aproveitado os teus dias?
— Tento… mas parece que falta qualquer coisa — disse, com o coração apertado, sabendo muito bem o que me faltava.
— Sei do que falas… — respondeu, quase num sussurro, com os olhos a brilharem de forma que só eu podia decifrar.
Aquelas palavras caíram-me como uma chuva quente sobre a alma. Senti que o mundo podia esperar, que nada mais existia senão este instante.
Ficamos um instante em silêncio. Era um silêncio diferente, cheio de palavras não ditas, de confissões que se podiam ler no olhar. Um vento leve mexeu-lhe o cabelo, e o sorriso dela tornou-se um convite, suave, quase imperceptível.
— Sabes… estive a pensar… — arrisquei, aproximando-me só um pouco, sem quebrar o espaço de ternura entre nós.
— E…? — perguntou, quase suspensa, como se a minha frase fosse uma promessa de segredo.
— Que fico feliz por te ver… finalmente — disse, com o coração a disparar.
— Eu também… — respondeu, baixando ligeiramente os olhos, mas mantendo o contacto, como se quisesse que eu visse tudo o que estava por trás do seu sorriso.
Rimos baixinho, partilhando aquele instante que parecia nosso, longe de olhares alheios. Cada palavra era um fio que nos ligava, cada gesto um pequeno gesto de coragem, um modo silencioso de dizer “estamos aqui um para o outro”.
— E amanhã… — comecei, hesitando.
— Amanhã… veremos o que o dia nos traz — completou ela, com um brilho nos olhos que fez o meu coração estremecer.
Ficamos ali mais um pouco, sem pressa, a prolongar o instante que o tempo teimava em encurtar. Cada segundo era uma eternidade de ternura, cada olhar uma promessa silenciosa de que nada tinha mudado entre nós, senão a certeza de estarmos feitos um para o outro.
Quando a brisa nos separou e se afastou, senti um turbilhão de emoções: alegria, desejo, medo de perder este instante e uma paz estranha por finalmente tê-la ali, mesmo que por breves momentos. Aquela manhã, aquele breve encontro, ficaria para sempre gravado na minha memória, como o momento em que tudo parecia possível, e o mundo inteiro podia esperar.
Voltei para casa com o coração a transbordar, sabendo que aquele reencontro há tanto desejado ficaria gravado na minha memória como um dos dias mais intensos da minha vida.
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