Fuga de um comício

Sexta-feira, 18 de Julho de 1975

Hoje a ausência da Odília deixou-me confuso, com os pensamentos a vaguear sem rumo certo. De manhã senti o vazio que a sua falta impunha, e a minha mão hesita sobre o diário, sem saber que palavras escrever. O meu pensamento oscilava entre a saudade dela e o vazio que a sua ausência criava.

De tarde, o meu pai chegou mais cedo para ir a um comício e decidi acompanhá-lo. Mal chegamos, a confusão começou. Entre gritos e empurrões, pessoas feridas e o medo crescente, vi-me obrigado a fugir com ele, o coração a bater forte, o corpo tenso, e a sensação de impotência a instalar-se. A adrenalina corria-me nas veias enquanto tentávamos escapar da zaragata, cada passo uma mistura de medo e alerta, a cidade parecia um labirinto de tensão.

À noite, no café, o calor do lugar e o riso das pessoas deram-me algum alívio. Conversamos sobre coisas banais, mas os meus pensamentos não se libertavam do tumulto vivido e da ausência da Odília. No regresso a casa, a cidade parecia mais silenciosa, como se o mundo tivesse finalmente recuperado a sua respiração.

Mesmo com o dia marcado pelo medo e pelo caos, fecho estas linhas com uma ponta de esperança: a vida, apesar de tudo, ainda guarda momentos de calma, e talvez, amanhã, o sol traga de volta alguma serenidade e a promessa de encontros que aquecem o coração.


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