Caminhos e Encontros

Quinta-feira, 17 de Julho de 1975

De manhã o Benjamim perguntou-me se queria ir com ele ao posto médico. Hesitei um instante, pensei nas complicações de ir a pé, mas decidi aventurar-me de bicicleta. Pedalar tornou-se não apenas um caminho físico, mas um espaço de pensamentos soltos, como se cada pedalada levasse comigo pequenas dúvidas e medos que insistiam em pairar.

No percurso, cruzei-me com um rapaz e o seu avô. Uma discussão acalorada e inesperada interrompeu o meu ritmo, palavras subindo e caindo como pedras. O vento parecia trazer a tensão e levá-la consigo, e depois, finalmente, a calmaria. Prossegui, retomando o curso da minha manhã, tentando deixar para trás a irritação do encontro.

Ao regressar a casa, o quintal da Odília chamou-me o olhar. Estava lá, por breves instantes, como uma visão fugaz que me deixou suspenso entre a alegria de a ver e a certeza de que logo teria de me afastar. Não pude ficar, e parti para casa, carregando comigo aquela centelha de proximidade.

De tarde, o Benjamim e o Manuel estiveram em minha casa. Rimos, conversámos, o tempo passou rápido entre nós, e senti a familiaridade segura da amizade. Mas às seis e meia, já não havia tempo a perder: parti com o Benjamim para o Porto. Fui ao liceu buscar um papel e depois segui para a escola de artes marciais, mergulhando num mundo de disciplina que contrastava com a leveza dispersa da tarde.

Quando finalmente regressei a casa, o céu já tingia-se de laranja e púrpura, e uma brisa leve entrava pelas janelas. Sentei-me à mesa, com a bicicleta encostada à parede, e deixei que a manhã e a tarde desfilassem na minha memória. Revivi cada gesto, cada olhar, cada palavra não dita. Um sentimento agridoce de satisfação e saudade apertava-me o peito: a alegria de ter vivido o dia, a inquietude de esperar pelo próximo encontro.

Antes de me deitar, olhei para a janela aberta, imaginando a Odília talvez em casa dela, talvez a recordar algo do dia. Sorri sozinho, a esperança e o desejo entrelaçados, enquanto a noite caía devagar, cobrindo a cidade e os meus pensamentos. Terminei o dia com o coração inquieto e cheio, sabendo que, apesar de tudo, os caminhos de amanhã prometiam novos encontros e novas emoções.


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