Entre o Riso e a Ausência

Quarta-feira, 16 de Julho de 1975

Acordei com o sol a escorregar pelas frestas da janela, mas a minha mente já estava noutro lugar. O Benjamim veio a minha casa com aquele ar animado e um convite que parecia simples — acampar à tarde. Aceitei, claro, mas dentro de mim havia uma inquietação silenciosa, um vazio que só a Dila conseguia preencher.

Enquanto seguimos para o local, ríamos das pequenas tolices do dia, das brincadeiras de um lado para o outro, das histórias que nos contávamos como se cada palavra fosse um mundo inteiro. Mas mesmo entre risos, sentia a minha atenção dispersa. Olhava para o céu e imaginava a Dila, onde estaria, o que estaria a fazer, se pensaria em mim assim como eu pensava nela.

O vento mexia na relva e trazia consigo aquele perfume do campo, mas nenhum aroma podia rivalizar com a lembrança do seu sorriso. Cada pequena distração parecia fútil diante da ideia de a ver, de sentir a sua presença, de ouvir a sua voz, mesmo que por um instante.

À noite, quando o pai do Benjamim nos veio buscar, senti um misto de cansaço e de frustração. O dia tinha sido alegre, sim, cheio de movimento e conversa, mas faltava o essencial: ela. Não a vi, e isso fez do meu coração um lugar silencioso, onde a sua ausência ecoava mais alto que qualquer riso ou jogo.

Ao deitar-me, pensei na Dila mais uma vez. Fechei os olhos e imaginei-a sorrindo, como se pudesse atravessar a distância que nos separava, como se a própria noite pudesse aproximar-nos. E assim, mesmo sozinho, senti-me vivo — porque amar, mesmo na ausência, é sentir o mundo inteiro num só olhar.


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