Entre sombras e devaneios

Terça-feira, 15 de Julho de 1975

O dia começou com um peso silencioso. A ausência do meu colega Manuel, que prometera companhia, deixou-me a vaguear sozinho entre pensamentos e sombras, com a sensação de que algo me escapava. Sem pressa, percorri ruas conhecidas, desviando-me das rotinas, como quem caminha sem destino, permitindo que a mente se libertasse das obrigações e se perdesse em sonhos.

Ao passar em frente à casa da Dila, senti um arrepio. Escutei vozes familiares da presença dos pais, bastava para que o coração se apertasse. Mas mesmo na distância, o meu pensamento invadiu o espaço dela: imaginei a Dila a sorrir, a encostar o ombro ao muro, a olhar para mim com aquela atenção que me faz perder o ar. Na fantasia, eu caminhava ao lado dela, nossas mãos quase a tocar, o silêncio entre nós pleno de significado, cada gesto carregado de promessas silenciosas.

No monte, longe de tudo, deixei-me levar por devaneios onde a realidade e a imaginação se confundiam. Sentamo-nos lado a lado, eu e ela, embora apenas em sonho; partilhamos conversas que não tinham palavras, sorrisos que não precisavam de explicação. O vento parecia sussurrar o seu nome e cada folha que caía me lembrava o toque suave de sua mão.

Quando finalmente regressei a casa, o mundo real parecia frio e vazio comparado à intensidade do que imaginei. Mas mesmo assim, uma certeza permanecia: mesmo na distância, mesmo entre sombras e impossibilidades, o meu coração sentia-a próxima, vibrando com a sua presença. E nessa viagem sem destino, aprendi que o amor podia existir nas linhas da imaginação, onde cada pensamento seu era vida, cada lembrança um sopro de eternidade.


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