O Verão e o Vulto do Desejo

Segunda-feira, 14 de Julho de 1975

O dia começou com uma leve excitação, quase invisível: ir ver as notas. Cada passo pelo liceu era lento, carregado de expectativa, o eco dos meus sapatos misturava-se com o murmúrio dos colegas. Passei de ano — e, de repente, o alívio expandiu-se dentro de mim como ar quente a subir. Mas não havia mais obrigação, nem plano, nem caminho. O mundo parecia suspenso.

A tarde espalhou-se em pedaços soltos, sem forma nem sentido. Fui até ao jardim de S. Lázaro, sentei-me num banco, deitei-me na relva, segui o voo errático de folhas secas ao vento. O calor do verão abraçava-me, mas era a mente que vagueava: flutuava entre a liberdade de ter passado de ano, a lentidão das férias que ainda se estendiam, e o pensamento dela, persistente e irresistível. Cada sombra, cada reflexo numa janela, cada vulto distante parecia esconder o seu sorriso. Eu via-a em todo o lado, mesmo sem a ver; imaginava cada gesto, cada passo, cada olhar que talvez nem existisse.

O tempo dilatava-se, elástico e silencioso. O vento brincava com o meu cabelo, o sol tocava-me a pele e eu permanecia anestesiado, dividido entre a sensação leve de flutuar e a intensidade do que ainda estava por vir. O pensamento dela tornava cada instante palpável: a antecipação de a encontrar novamente, o desejo de cruzarmos olhares, de sentir o calor do seu sorriso, tudo me aprisionava num presente sem começo nem fim.

Quando a noite finalmente chegou, com sombras longas e silêncio macio, entrei em casa e fechei a porta do quarto. Na minha mão, a fotografia dela — pequena e quieta, mas inteira, carregada de tudo o que eu sentia. Olhei-a demoradamente; o seu sorriso parecia iluminar o quarto, os seus olhos falavam sem palavras, e de repente todo o dia ganhou sentido. Senti ternura e saudade, desejo e calma, alegria e ansiedade, tudo ao mesmo tempo, como se cada emoção estivesse concentrada naquele instante único.

Fiquei assim, imóvel, como se o tempo tivesse decidido parar, ouvindo apenas o meu próprio coração a falar. E percebi, com uma certeza que atravessava cada fibra do meu ser: 

“Mesmo que não te veja, mesmo que a distância nos separe, és tu que fazes cada instante valer a pena. E mesmo que o mundo continue indiferente, o meu coração já escolheu: é por ti que bate.”