Adoça-me a voz dela

Domingo, 13 de Julho de 1975

A manhã começou com aquela espécie de disciplina que nunca chega a ser rotina: uma aula de ginástica na escola de artes marciais, eu, o Benjamim e o primo dele, todos ainda meio presos ao sono. O corpo mexia-se, mas a cabeça andava noutra parte qualquer — num pátio, talvez, ou numa janela aberta onde mora uma voz que me persegue. No fim, regressei a casa cheio de fome, dessas que nos fazem parecer mais vivos do que realmente estamos. Comi como se o prato me tivesse ofendido.

A tarde correu devagar, sem grandes sobressaltos. O Benjamim veio ter comigo e passamos horas a fio entre conversas soltas e silêncios que já conhecemos bem. Só quase ao entardecer apareceu o Manuel, sempre com aquela energia que parece chegar atrasada ao dia. Estivemos os três, mas havia em mim uma certa inquietação — aquela leve pressa escondida que só aparece quando a esperança de ver alguém se acende lá ao fundo.

Às oito, eu e o Benjamim voltamos a reencontrar-nos para a nossa volta habitual. Não era preciso escolher o caminho: havia apenas um. Passar em frente à casa dela era como tomar a pulsação ao coração — confirmar se ainda bate.

E bate.

Quando chegamos, lá estava a Odília no pátio, com a irmã. Vi-a de longe, muito longe, mas mesmo assim senti aquele aperto doce, meio envergonhado, que me atravessa sempre que a minha sombra se cruza com a dela, ainda que ela não repare. Fiquei ali parado, a observar sem ousar aproximar-me, como quem teme que um passo em falso espante a alegria.

Esperei. Esperei porque quem ama aprende cedo que esperar é uma arte e uma condenação.
E depois — como se o universo piscasse um olho — ouvi a voz dela.

Aquela voz.
Sempre me desarma.
É uma música que não pede licença, entra e fica.

Foi apenas um instante, um punhado de segundos que mal chegam a caber na palma da mão. Mas bastou. Há dias em que basta ouvi-la, mesmo que ela não saiba que estou ali, mesmo que o mundo não mude por causa disso.

Depois, o silêncio fechou-se devagar, como uma porta que se encosta sem ruído. E eu vim embora.

À noite, já deitado, fiquei a pensar nela.

Há coisas que não digo a ninguém, mas aqui posso dizê-las: quando a vejo — mesmo ao longe, mesmo por um fio de acaso — sinto que o dia ganha sentido, como se só então se justificasse ter acordado. A Dila não sabe, mas basta a sombra dela para pôr ordem no meu caos. E às vezes tenho medo disto… deste poder que ela tem sobre mim sem sequer pedir.

Mas depois penso que talvez seja isto que é estar vivo com quinze anos:
amar assim, sem jeito, sem lógica, sem defesas.
E aceitar que cada vez que a vejo, por segundos apenas, o impossível parece ao meu alcance.


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