A sombra que o coração reconhece

Sábado, 12 de Julho de 1975

O dia amanheceu tímido, como se tivesse medo de incomodar. Havia uma claridade molenga, quase sonolenta, e eu senti logo que não seria um dia de corridas nem de descobertas — seria daqueles em que o tempo anda devagar, como quem escuta.

Passei a manhã entre pequenas distrações: arrumar o que não precisava de arrumação, folhear um livro sem realmente o ler, ajudar o meu pai em ninharias domésticas só para não confessar a mim próprio o verdadeiro motivo da inquietação — ela. A Dila parecia estar em todos os cantos da casa, embora não estivesse em lado nenhum. O silêncio dela mexia comigo de uma maneira que eu ainda não sabia nomear.

Depois de almoço, vagueei pelas ruas quase sem destino, a bicicleta a servir apenas de desculpa para me afastar de casa. O calor, a luz, os sons… tudo parecia mais distante do que nos dias anteriores. Era como se o mundo respirasse fundo antes de anunciar uma mudança. E eu, que ainda não compreendia isso, limitava-me a sentir.

Quando subi ao Alto do Depósito, já a tarde estava num tom dourado cansado. Sentei-me um pouco no sítio do costume, sem pressa, e deixei-me ficar ali, num diálogo mudo comigo mesmo — aquele tipo de conversa que é quase um sussurro:

“Então, o que é que tu andas a defender?
De quê é que tens medo?
De a perder? Ou de a querer demais?"

Senti estas palavras crescerem cá dentro como se fossem uma realidade que procurava integrar na minha vida. Não as disse — escrevo-as agora, mas naquele momento ficaram apenas a vibrar-me no peito, sem som.

Voltei para casa antes que a noite caísse. Não aconteceu nada de extraordinário… e, no entanto, senti que algo se tinha deslocado dentro de mim, como uma peça que finalmente encontra o encaixe certo. Às vezes, o dia mais curto é o que mais nos mexe por dentro.


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