O Segredo do Alto do Depósito

Sexta-feira, 11 de Julho de 1975

Passei o dia com o Benjamim e o Manuel, entre jogos de cartas e voltas de bicicleta, mas a minha mente não parava de pensar nela. Quase no fim da tarde, subi ao nosso lugar do costume, naquele caminho abaixo do Alto do Depósito. Lá estava ela, como se soubesse que eu a esperava. O vento movia-lhe suavemente o cabelo, e a luz do fim do dia desenhava o contorno do seu rosto com delicadeza.

Olá Dila — murmurei, aproximando-me devagar, quase como se o silêncio do lugar pudesse quebrar o encanto do momento.

Ela sorriu, aquele sorriso que parecia iluminar tudo à volta, e inclinou ligeiramente a cabeça.
Então… estiveram a fazer muitas traquinices hoje? — disse baixinho, olhando de soslaio para os outros que ainda estavam entretidos mais longe num jogo da bola.

Poucas, nada comparado a… isto… — respondi, apontando para o lugar onde estávamos sozinhos.

Ela riu baixinho, cúmplice, e sentou-se na pedra, mexendo distraidamente nos cabelos. O gesto parecia inocente, mas carregava uma graça que me fez sorrir sem conseguir controlar.
Adoro estes momentos… mas ninguém pode saber — 
disse, baixando a voz, como se o mundo inteiro pudesse ouvir-nos.

Nem eu quero que saibam — confessei, sentando-me ao lado dela, sentindo a proximidade como se fosse um segredo partilhado.  Sinto-me mais eu próprio aqui, contigo. É como se o resto desaparecesse.

Ela olhou-me nos olhos, séria por um instante, e depois sorriu novamente, aquele tipo de sorriso que teima em fazer o coração bater mais rápido:

Sabes… ontem pensei em ti. Perguntei-me se estarias a pensar em mim também.

Sempre — respondi sem hesitar. — Cada minuto longe de ti é uma eternidade. Às vezes sinto que te perco mesmo quando estás perto.

Ela aproximou-se ligeiramente a mim, baixando a voz ainda mais:
Então prometes-me algo? Que nunca vamos deixar que nada nos afaste daqui, nem as pessoas, nem as famílias, nem os olhares curiosos?

Prometo — sussurrei, sentindo o calor do coração bater forte, como se pudesse sentir o dela. — Não há nada que me faça mudar de ideia, Dila. Nem o mundo inteiro.

Por um instante ficamos em silêncio, só nós dois, ouvindo o vento e o som do sino da igreja a tocar horas distantes. Até o céu parecia mais calmo, como se guardasse aquele momento só para nós.

Tenho pena de ir embora — disse ela, finalmente, quase como um segredo partilhado, tocando ligeiramente a ponta da minha manga antes de se levantar.

Eu também — confessei, contive-me para não pegar na sua mão, sentindo cada fibra do meu corpo a querer aproximar-me — Mas sempre que nos encontrarmos, este momento será nosso. Sempre.

Ela sorriu, um sorriso doce e triste ao mesmo tempo, e levantou-se:

Até amanhã, então… não te esqueças de mim.

Jamais — respondi, vendo-a desaparecer entre as sombras do caminho, o seu perfume ainda a flutuar no ar.

Procurei pelos meus colegas, mas já não estavam lá. O resto do dia passou lento, tudo em meu redor eram sombras distantes comparadas com o que tinha acabado de viver. No meu coração, ecoava apenas o seu olhar, o seu sorriso, e a promessa silenciosa que nos unia, tão clara que parecia gravada na minha própria pele.


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