Entre o silêncio e a rotina
Quinta-feira, 10 de Julho de 1975
O dia passou-se sob a companhia constante do Benjamim e do Manuel. A Dila continua ausente, sem notícias, e isso deixa-me com uma sensação de vazio que nem a presença dos amigos conseguia preencher.
À tarde vagueei de bicicleta pelas ruas e vielas de S. Pedro, deixando que os pensamentos me conduzissem. Cada esquina, cada recanto parecia recordar-me do meu dia-a-dia, das rotinas que antes se enchiam de pequenas alegrias quando ela estava por perto. Senti-me afastado do meu próprio mundo, como se tudo ao meu redor tivesse perdido cor, e percebi que grande parte da minha vida girava em torno da espera por um simples sinal dela. Refleti sobre as pequenas coisas que antes me satisfaziam — um passeio, uma partida de bola, uma conversa — e como agora tudo parece incompleto, fragmentado pela ausência da Dila.
O regresso a casa trouxe o conforto da normalidade: o jantar, a televisão e o silêncio que se segue quando a noite cai. Sentado no meu quarto, sozinho com os meus pensamentos, o cansaço mistura-se com uma inquietação silenciosa. E então dei comigo mesmo, num monólogo mental, como se procurasse uma resposta:
"E se um dia ela deixasse de me olhar, e eu não conseguisse viver sem isso? E se o mundo continuar a girar e eu permanecer preso neste instante, a esperar por algo que talvez nunca venha a acontecer?"
Guardei essas palavras comigo, silenciosas, íntimas, e deixei que se misturassem com o escuro do quarto. Um dia completo, mas marcado pela ausência dela, uma ausência que pesa mais que qualquer movimento ou conversa.
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