O silêncio que ela deixou

Quarta-feira, 9 de Julho de 1975

De manhã encontrei a irmã da Odília, apressada como quem traz notícias que preferia não carregar. Disse-me que a Dila estava doente. A frase ficou ali, suspensa entre nós, e eu limitei-me a desejar-lhe as melhoras — demasiado depressa, quase com medo de mostrar o que me atravessava o peito.

Ela seguiu caminho e eu fiquei parado por breves segundos, como se o chão tivesse abrandado. Depois saí, não para ir a lado nenhum em particular, mas para me perder um pouco pelas ruas e vielas, deixando os pensamentos correrem à frente dos meus passos. A bicicleta veio comigo apenas como um pretexto, uma forma de me mover enquanto a preocupação se tornava companheira silenciosa. Não procurava destino; procurava sossego. E não encontrei nenhum.

A tarde foi isso: um vaguear sem mapa, cada esquina a fazer-me lembrar a ausência dela, cada rua a parecer-me longa demais para quem só queria vê-la sorrir e saber que estava bem.

À noite, o mundo assentou. Jantei e, num desses momentos raros, ensinei ao meu pai algumas técnicas de luta. Movimentos simples, quase inocentes, mas que nos aproximaram por uns instantes. Ele observava-me com aquela atenção discreta que não pesa, e senti que, de algum modo, havia ali um entendimento que não se diz, mas existe.

Acabei o dia a pensar que o silêncio dela fazia mais ruído do que qualquer noite inteira. É estranho como alguém pode fazer falta sem sequer ter prometido aparecer.

Agora, quando fecho o diário, percebo que a ausência dela se transformou numa presença persistente, uma sombra doce que me obriga a olhar para dentro de mim. Aprendi que o amor não se mede apenas por encontros ou palavras, mas pelo espaço que alguém ocupa no silêncio, pelas preocupações silenciosas e pelos gestos que ficam guardados na memória. Hoje senti isso mais do que nunca: o coração inquieto, o pensamento inquieto, e a certeza de que, mesmo distante, ela faz-se sentir. O mundo lá fora continuava a girar indiferente, mas aqui dentro, cada minuto sem ela era um eco de ternura e de espera. E é nessa espera que se aprende a amar.


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