O peso das notas e a leveza dos sonhos

Terça-feira, 8 de Julho de 1975

A manhã começou com a última aula de Ciências — curta, simples, quase um aceno final antes de o ano lectivo fechar as portas. Saí cedo e, sem grande hesitação, deixei que os passos me levassem ao quadro das notas da Odília.

Procurei-a longamente, como quem procura uma resposta que já sabe que não vai encontrar. Quando finalmente encontrei o nome, senti um aperto estranho: duas negativas. Não sabia se era suficiente para chumbar, mas — talvez só por necessidade — preferi acreditar que sim, que ela seguiria em frente.

Depois disso voltei para casa com uma sensação oca, como se o dia estivesse apenas pela metade. A tarde abriu-se diante de mim vazia, sem planos, sem rumo. Andei pela casa como quem procura ocupação num território que já conhece de cor: mexi em livros, ajeitei objectos que não precisavam de ser ajeitados, vagueei entre janelas, portas e pensamentos.

A verdade é que, com as aulas a chegarem ao fim, começava a instalar-se em mim uma espécie de vertigem. Sem a rotina da escola, sem os corredores onde por vezes a via passar, sem a esperança de um encontro casual, eu tinha medo do silêncio que o Verão trazia.

É estranho — parece que quando o mundo abranda, o coração acelera para compensar. Passa a ser mais difícil não pensar nela; mais difícil ainda convencer-me de que posso existir num dia inteiro sem a sua sombra, sem uma troca de olhares, sem uma simples certeza de proximidade.

Depois disso, a tarde estendeu-se diante de mim como um corredor vazio. Sem aulas, sem pretextos, sem a presença dela a pairar por perto, senti-me meio solto no mundo. Fiz pequenas coisas sem importância — arrumei, desarrumei, vagueei pelos compartimentos como quem tenta distrair a cabeça com movimentos inúteis.

Com o fim das aulas vinha também o fim dos encontros acidentais, dos olhares que escapavam entre portas, daquela esperança tola de a ver surgir numa esquina qualquer. Percebi que o Verão tem isto de cruel — afasta-nos das pessoas que mais precisamos de encontrar.

A meio da tarde, o meu pai chamou-me para lhe dar uma ajuda rápida na preparação de um nunchaku. Uma coisa simples, quase improvisada, uma ferramenta para os meus primeiros passos nas artes marciais. Ajudá-lo ocupou-me uns longos minutos — mas, por breves instantes, serviu para silenciar a confusão dentro de mim.

Quando tudo ficou pronto, a casa voltou ao seu sossego. E eu fiquei novamente entregue ao pensamento dela.

Não a ver todos os dias começava a parecer uma espécie de aprendizagem forçada — como treinar um músculo que ainda nem existe.

Antes de adormecer, ocorreu-me uma verdade tímida:

Os dias sem a Dila não são dias vazios. São dias incompletos — daqueles que só descansam quando o coração os reescreve.