A Tarde em Silêncio e o Eco da Sua Voz
Segunda-feira, 7 de Julho de 1975
O dia arrastou-se em casa, pesado e lento, cada minuto marcado pelo som distante do meu próprio coração. Só à tarde saí com o Manuel, mas mesmo a sua companhia não preenchia o vazio que a ausência da Dila deixava. Cada passo pelas ruas conhecidas era como atravessar um túnel de memórias, a cada esquina imaginando-a: sentada no muro do quintal de sua casa, a rir de uma piada que só ela sabia contar, ou a olhar para mim com aquele brilho que me fazia esquecer o mundo.
Às sete e meia fui ter com o Benjamim ao Porto para a minha terceira aula de artes marciais. Entre golpes e socos, a mente teimava em fugir, e a cada respiração eu imaginava o seu sorriso:
— António, estás a pensar em mim de novo, não estás? — parecia ouvir a sua voz doce e firme.
— Talvez… — sussurrei para mim mesmo, quase com medo de que o vento levasse a confissão.
Cheguei a casa perto das dez e meia, cansado mas inquieto. Jantei sem realmente saborear a comida e fiquei diante da televisão, mas o ecrã parecia cinzento, sem vida, incapaz de competir com a imagem que a minha mente criava: ela, a Dila, movendo-se com leveza, a rir de algo que só eu podia imaginar.
Quando o Benjamim chegou com o violão, sentámo-nos em frente de minha casa e começámos, ele a tocar e eu a cantar. Cada acorde parecia uma ponte até à Dila, ausente e presente ao mesmo tempo. Senti, quase como se a realidade se dobrasse, que ela surgia entre os fios do luar:
— Estás a cantar para mim? — perguntou ela na minha mente, imaginando-a sorrir lá longe.
— Sempre para ti, Dila — respondi, e senti o calor de cada palavra como se ela tivesse sido verbalizada de verdade.
O som da música repercutia-se no silêncio da noite, e no meu pensamento ela respondeu-me, como se estivéssemos ali, lado a lado:
— Sabes, às vezes parece que estás sempre comigo — disse ela na minha mente, quase como um sussurro que se misturava com o vento.
— E tu… sempre comigo, mesmo que eu não te veja — respondi acreditando nas palavras que idealizava para mim, sorrindo sem que ninguém percebesse.
Horas passaram sem que eu percebesse, cada nota do violão preenchendo o espaço onde a sua presença deveria estar. Quando o Benjamim se despediu, fiquei sozinho, o coração ainda acelerado, olhando para o céu escuro. A brisa parecia carregar-lhe a voz, a risada, até o odor imaginário do seu cabelo esvoaçando, como se tudo à minha volta fosse feito para ela.
— Um dia… um dia estarás aqui de verdade — pensei, o coração apertado de desejo e esperança.
— Mesmo ausente Dila, habitas cada canto do meu dia. Mesmo que só em pensamento, cada gesto, cada sorriso, cada palavra imaginada torna-se mais real do que tudo o resto…
E, nesse instante, senti que a distância não podia apagar aquilo que já habitava em mim: a Dila, completa, viva, incessante, dentro de cada nota, de cada suspiro, de cada sombra do luar.
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