O instante que durou uma eternidade

Domingo, 6 de Julho de 1975

O dia abriu-se com um sol tímido, espalhando uma luz morna pelas ruas silenciosas. Os meus pais tinham ido ao baptizado da minha sobrinha, deixando-me sozinho em casa, onde cada passo meu parecia amplificar o silêncio. A espera parecia longa, mas logo o Manuel apareceu e, sem grandes palavras, saímos para dar uma volta. O vento morno tocava-me a pele, e senti o prazer simples de caminhar sem pressa, como se o tempo tivesse decidido abrandar só para nós.

No regresso, deparei-me com a Dila. Estava acompanhada da irmã e de algumas colegas. O coração bateu-me descompassado, mas ela reparou em mim e sorriu, como se a minha presença lhe trouxesse alegria. Decidimos afastar-nos um pouco dos outros, procurando um canto mais calmo para conversar.

Olá — disse eu, quase sem fôlego. — Estava a ver que não conseguíamos estar sozinhos. Não era bom se estivéssemos só nós os dois?

Seria bom sim… — respondeu ela, os olhos a brilhar de maneira que me fez sentir quente por dentro. — Mas não é possível… elas estavam muito curiosas de te conhecer.

Caminhamos lado a lado, tentando que a conversa parecesse casual, mas cada palavra trazia uma carga que nenhum de nós podia ignorar.

Tenho sentido a tua falta… — murmurei em voz baixa, sem saber se era demasiado.

Eu também… — disse ela baixinho. — Mas estes encontros são perigosos, não podemos ser vistos.

O silêncio caiu entre nós, mas era um silêncio carregado de significado. O coração parecia bater mais forte a cada passo, a cada olhar furtivo. Por um instante, o mundo reduziu-se ao espaço entre nós, e senti que, mesmo por pouco tempo, estávamos juntos de forma absoluta.

Amanhã talvez possamos falar mais… — disse ela, hesitante, como se temesse quebrar o encanto do momento.

Espero que sim… — respondi, sentindo cada palavra como uma promessa silenciosa.

Quando nos despedimos, um breve aceno foi suficiente para transmitir tudo o que palavras não conseguiam conter. Caminhei para casa com o coração pesado e leve ao mesmo tempo, sentindo o calor da presença dela a perdurar em mim mesmo quando já não a via.

Deitei-me, pensando que os encontros mais curtos podem marcar mais do que dias inteiros. E enquanto a noite caía, percebi que a intensidade de um instante é capaz de permanecer para sempre na memória.


« Página anterior / Índice / Página seguinte »