A espera que não passa
Sábado, 5 de Julho de 1975
O dia começou pesado, com o calor de Julho a encher o ar, tornando cada passo mais lento e cada respiração mais difícil. Fui às aulas como sempre, mas a mente recusava estar presente: as horas arrastavam-se, e o desejo silencioso de ver a Dila dominava cada pensamento. Tudo parecia suspenso, como se o mundo tivesse parado só para me fazer sentir a ausência dela.
Saí mais cedo e lanchei em casa, sem conseguir encontrar qualquer prazer nas conversas ou na televisão. Cada imagem que passava parecia mais distante que a lembrança do riso dela, aquele riso que continuava a reverberar no peito, acompanhado pelo calor do Verão e pelo cansaço de um dia longo.
À noite, jantei e fui com o meu pai ao cinema. Entre sombras e luzes, o som abafado dos actores e o farfalhar das cadeiras, a sua presença insistia em aparecer no meu pensamento. Não a via, não a ouvia, mas a sua imagem ocupava todo o espaço que me restava, como se fosse uma marca indecifrável da minha própria existência. O coração batia forte, acelerado, e cada movimento do corpo parecia sincronizado com um silêncio que só eu podia ouvir.
Quando regressei a casa, sentei-me junto à janela do meu quarto. A rua estava quente, calma, apenas o murmúrio distante de uma porta a bater ou o ranger de uma tábua a romper o silêncio do Verão. Fechei os olhos e dei-me ao luxo de imaginar o impossível:
Na minha mente, a Dila surgia do final da rua, passos leves e seguros, cabelo a ondular suavemente com o sopro quente do Verão. Cada gesto parecia tocar o ar, e cada som que eu inventava dela ressoava dentro de mim, fazendo o coração tremer.
— Então, como passaste o dia? — perguntou, e parecia que a sua voz vinha do mesmo espaço que o bater do meu coração, atravessando-me como um vento cálido e persistente.
— Bem… — murmurei, sentindo a respiração falhar — mas senti a tua falta.
Ela sorriu, e por um instante a noite transformou-se num espaço onde nada mais existia: nem a rua, nem o calor, nem o tempo. Só nós dois, suspensos num instante que não podia acontecer, mas que eu podia sentir. Cada gesto inventado, cada palavra criada, cada silêncio partilhado parecia mais real que tudo o que me rodeava. Sabia que tudo aquilo era fruto da minha imaginação, um abrigo para o coração ansioso, mas, ainda assim, ensinava-me algo profundo: o amor, mesmo ausente, podia ser inteiro dentro de mim, e só o sentir já bastava para me fazer crescer.
O sábado terminou, e a noite quente envolvia a cidade adormecida como um manto pesado. O calor do Verão permanecia, misturado com o pulsar do meu próprio corpo, o bater acelerado do coração e o silêncio que só eu ouvia. Descobri que o imaginário pode ser mais íntimo e poderoso que a própria realidade: é nele que o coração aprende a esperar, a sonhar e a sentir, mesmo quando o toque que se deseja ainda não é possível. Amanhã será outro dia, mas hoje, neste silêncio quente e profundo, aprendi que amar também é saber estar só, com o coração a bater ao ritmo da própria saudade e da própria imaginação.
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