Quando o tempo se dobra num instante

Sexta-feira, 4 de Julho de 1975

O dia começou como tantos outros, com aquela rotina mansa que tenta disfarçar a inquietação que trago debaixo da pele. Fui às aulas, é verdade, mas a cabeça andava noutro sítio — e não me espanto que tenha acabado por faltar aos dois últimos tempos com o Benjamim. Às vezes é o mundo que falha comigo, outras vezes sou eu que falho com o mundo… hoje foi um empate.

O dia vinha a arrastar-se, meio desinteressado, até ao momento em que uma colega me disse, quase em confidência, que a Odília vinha a caminho. Não quis acreditar — a prudência manda sempre baixar as expectativas — mas algo em mim virou o rosto para trás antes mesmo de eu decidir. E lá estava ela: a irmã ao lado, uma colega atrás, e aquele passo rápido que parecia feito para me desorientar o coração.

Aproximei-me. Os segundos antes de chegar até ela pareceram uma corda esticada entre a vontade e o receio.

Olá, Dila.
Ela levantou os olhos, surpresa primeiro, depois com aquele brilho que nunca sei se é meu ou apenas do sol.

Olá… estás bem? — perguntou, numa voz baixa, breve, mas quente o suficiente para me derreter a resistência.

Estou… mais ou menos. — arrisquei um sorriso. — Não te queria atrasar. Sei que vais com pressa.

Ela suspirou, não de aborrecimento, mas de quem gostaria de ficar mais do que o tempo permite.

É só mesmo isso… tenho de ir ajudar a minha mãe.
A irmã puxava-lhe o braço, impaciente. A colega observava tudo com aquele ar de quem entende mais do que devia.

Eu só queria dizer… que foi bom ver-te. Mesmo assim, de passagem.
Eu também te vi de manhã. — confessou, quase num segredo. — Só não deu para falar.

Aquilo bastou-me. Era como se, por um instante, tivéssemos escorregado para um daqueles dias em que tudo parecia fácil entre nós.

Um dia destes… — comecei.
Sim… — apressou-se ela a dizer, antes que eu lhe pedisse algo impossível. — Um dia destes…

E sorriu. Foi rápido, mas era um sorriso verdadeiro, daqueles que deixam um rasto na pele.

Despediu-se com um aceno curto e partiu com a irmã e a colega, como se o mundo estivesse à espera dela noutro lado qualquer. Fiquei a olhar até desaparecer na curva da rua, não por hábito, mas por necessidade — como quem tenta guardar a última luz do dia antes que a noite se instale.

Passei o resto da tarde sem grandes histórias para contar. A rotina foi igual a tantas outras, mas tudo o que aconteceu antes parecia puxar-me para dentro, para um lugar onde o tempo fica dobrado num só instante.

Agora, ao terminar estas linhas, dou por mim a pensar que há encontros que não precisam de durar para se tornarem enormes. Às vezes basta uma troca de palavras apressadas, um sorriso que não devia ter acontecido, ou apenas a certeza de que o outro nos viu — realmente viu.

E isso, hoje, chegou para me acender o caminho inteiro.


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