O eco das despedidas
Quinta-feira, 3 de Julho de 1975
O dia começou envolto naquela luz morna de Julho, a luz que parece prometer tranquilidade mas que, para mim, só reforçava a sombra da ausência dela. Fui às aulas, como mandava o calendário e a rotina, e tivemos a despedida da última aula de Educação Visual. A palavra “despedida” ficou-me presa na cabeça, como se carregasse mais peso do que o professor imaginava. Talvez porque eu também andava a despedir-me — não dela, que nunca me largava o pensamento, mas das certezas que julgava ter.
Voltei com o Benjamim para casa, falamos pouco, cada um mergulhado no seu labirinto. Jantei sem entusiasmo, com o pensamento nela como quem mastiga sem provar.
Depois do jantar, eu e o Benjamim saímos sem grande plano, mas com aquele destino secreto que nunca precisávamos de dizer em voz alta. A noite estava morna, e havia em mim uma inquietação que só tinha um nome. Caminhamos pelas ruas como quem segue um íman invisível até chegarmos às traseiras da casa dela — onde tudo parecia sempre mais silencioso, mais suspenso, como se o mundo próprio ali se detivesse.
Era tão bom poder bater na sua porta para a chamar, não bati, nunca o faria. Havia códigos que se respeitavam — e medos, claro. Medo dela ser apanhada, medo de sermos descobertos, medo de perder aquele espaço frágil onde ainda nos podíamos ver. Aproximamo-nos devagar, quase a conter a respiração, olhando para o quintal escuro como quem adivinha presságios.
E foi então que ela apareceu.
A Dila surgiu na sombra com um passo leve, como se sempre soubesse que nós acabávamos por ali. Talvez tenha ouvido um murmúrio, talvez tenha pressentido a nossa presença — ou talvez fosse só destino. O coração bateu-me tão forte que temi que ela ouvisse.
— És tu Dila…? — arrisquei, numa voz que era quase só ar.
Ela aproximou-se um pouco, o rosto iluminado apenas pelo franzir tímido de um sorriso.
— Sim… pensei que fossem vocês… que fosses tu… — A voz dela era baixa, mas quente, como quem fala para não acordar a casa inteira.
O Benjamim ficou uns passos atrás, a guardar o silêncio. Eu avancei meio palmo.
— Não te queria incomodar… — disse-lhe. Era mentira. Queria, sim, mas de uma maneira boa, daquelas que não magoam.
Ela abanou a cabeça com doçura.
— Não incomodas… — E depois acrescentou, quase num sussurro, como quem confessa um segredo que não devia dizer: — Ainda bem que vieste…
O tempo ali ficou denso, imenso. O quintal parecia demasiado pequeno para tanta emoção contida.
— Hoje pensei em ti… — disse-lhe eu, sem conseguir segurar a verdade.
Ela baixou um pouco o olhar, mas não fugiu.
— Também pensei… — murmurou. — Mas tive um dia complicado. E tu?
— Igual. — Sorri de leve. — Acho que os dias ficam sempre complicados quando não te vejo.
Ela ergueu os olhos e, por um momento, senti que podia acontecer qualquer coisa. O mundo ficou suspenso nesse olhar — e eu, que era miúdo, senti-me tão vivo que até doía.
— Não posso demorar — disse ela, com pena no timbre da sua voz. — A minha mãe anda atenta.
— Eu sei — respondi. — Só queria ver-te nem que fosse por um instante.
Ela aproximou-se mais um pouco, talvez o máximo que ousava. A luz fraca mostrava-lhe os contornos do rosto, a profundidade dos seus olhos azuis e tornava tudo ainda mais real.
— Ainda bem que vieste… — disse ela outra vez, agora mais baixo, como quem diz exactamente aquilo que sente.
Troquei com ela um sorriso que, para qualquer outro, seria breve. Para mim, foi uma eternidade.
E então, como um sopro que se apaga, ela recuou.
— Tenho mesmo de ir…
— Vai então… — respondi, embora tudo em mim quisesse pedir-lhe que ficasse. — Boa noite, Dila.
— Boa noite… António.
Quando desapareceu para dentro de casa, o quintal pareceu voltar ao tamanho normal — pequeno, escuro, quase sem graça. Fiquei ali um instante parado com uma sombra que não sabia ainda retomar o mundo.
No caminho de volta, não falamos. Não era preciso. Dentro de mim, aquele curto diálogo estendia-se como um rio quente, interminável.
Assim terminou o dia: com um encontro rápido, quase proibido, mas que ficou preso à memória como se tivesse durado uma vida inteira.
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