O peso da ausência

Quarta-feira, 2 de Julho de 1975

Hoje senti-me esmagado pela sensação de um tempo que não quer passar. O dia começou com as rotinas do liceu, mas cada som, cada movimento parecia insuficiente para preencher o vazio que a ausência da Odília deixava. Até mesmo a companhia do Benjamim, que normalmente seria um conforto, parecia apagada diante da memória persistente dela.

Em casa, a imagem da Odília invadia-me a mente sem pedir licença. Lembrei-me do seu sorriso, do modo como inclinava a cabeça ao falar, do calor das suas mãos quando, num daqueles encontros furtivos, colocava no meu braço para sussurrar algo. Cada lembrança era como um fio invisível que me puxava para ela, tornando impossível concentrar-me em qualquer outra coisa. Fechei os olhos por alguns instantes e percebi que a minha respiração acompanhava o ritmo da lembrança, lenta, profunda, quase dolorosa de tão real.

À tarde, com os livros à frente, tentei canalizar a mente para o estudo, mas era inútil: cada página parecia desfazer-se na minha frente. A visão dela, embora ausente, acompanhava-me em tudo; a sua voz parecia ainda ecoar no corredor da minha memória, cada palavra dela fazendo vibrar algo no peito, uma mistura de desejo, esperança e uma ponta de ansiedade.

Quando a noite chegou, o gesto de ir até à sua casa tornou-se um acto ritual. Esperar, olhar, imaginar – tudo em vão. A janela fechada, o silêncio que me devolvia a realidade, e eu ali, sozinho, a sentir o peso de não poder tocá-la, de não poder dizer-lhe tudo o que borbulhava dentro de mim. Mas mesmo na frustração, percebi algo: cada ausência consolidava a presença dela em mim, transformando o desejo em uma espécie de companhia constante, silenciosa, impossível de ignorar.

Ao escrever estas linhas, compreendo que o que sinto não é apenas saudade: é a consciência de que certas presenças se tornam parte da própria alma. A Dila não está aqui, mas está em cada pensamento meu, em cada silêncio, em cada pausa do meu coração. E talvez seja assim que se aprende a amar verdadeiramente: a carregar a presença de alguém mesmo quando ela não pode estar fisicamente, a sentir que a vida é mais intensa e mais complexa por causa dessa ausência, e a perceber que, mesmo sem ela ao meu lado, o amor que sinto não diminuirá, apenas se tornará mais profundo.


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