Tão perto e tão longe
Terça-feira, 1 de Julho de 1975
Hoje senti o peso da primeira aula de artes marciais. Cada músculo doía, como se a memória do treino me agarrasse, recordando-me da disciplina e da dor física. Fui com o Benjamim para o liceu; tivemos um exercício de inglês e, às seis, regressei a casa com o corpo cansado, mas a mente inquieta.
Pela manhã, avistei a Odília. Estava ali, a poucos metros, com uma senhora que a acompanhava, e senti um aperto no peito que quase me deixou sem ar. Cada passo que ela dava, cada gesto seu, parecia esculpir dor dentro de mim: queria correr, queria atravessar a distância, queria que o tempo parasse para eu poder aproximar-me e falar com ela, mas o medo, a prudência e a presença da outra senhora tornavam isso impossível. Fiquei ali, imóvel, com a alma a doer, sentindo o mundo comprimir-se entre nós. O coração batia rápido, a cabeça girava e, ao mesmo tempo, tudo dentro de mim queria que eu não existisse naquele instante — só para que ela estivesse sozinha comigo.
Um arrepio de pena atravessou-me, e uma mistura de frustração e desejo tornou cada segundo insuportável. Ver o seu olhar que parecia vaguear, percebendo que ela sabia que eu a observava, mas sem poder aproximar-me, era um tormento que me consumia lentamente. Cada gesto dela tornava-se um punhal silencioso: queria tocar-lhe a mão, dizer-lhe qualquer coisa, mas o silêncio entre nós era um muro intransponível. A distância nunca me tinha doído tanto.
Em casa, lanchei rapidamente. O Benjamim chegou e passamos a tarde a jogar à bola, tentando afastar a frustração que se agarrava ao meu peito, mas a lembrança da Odília não me largava. À noite, ele trouxe o violão e fomos para a frente da casa da Odília. Ali estivemos, lado a lado, até quase a noite cair — onze e um quarto. Cada acorde parecia chamar o tempo para si, mas nada mudava. Voltei para casa com o coração carregado de desejos contidos e agora percebo que a presença dela se agarrou a mim, como se cada lembrança fosse uma semente de saudade cravada na pele, crescendo silenciosa e constante.
Agora, escrevendo, percebo que a fotografia da Odília parece olhar para mim, fixa, silenciosa, lembrando-me que o que sinto não se dissolve com a distância. Foi um dia de dor contida, de desejos impossíveis, de esperas prolongadas — e ainda assim, mesmo na frustração, senti que a sua presença me tocou, e que a espera por um instante juntos, por breve que seja, vale cada sofrimento.
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