Sinais ao Longe

Sexta-feira, 1 de Agosto de 1975

O dia abriu-se lentamente, com uma luz de Agosto que parecia acordar a contragosto, como se o calor tivesse cansado o próprio Verão. A energia do dia anterior ainda pairava no ar, mas agora diluída, transformada numa espécie de torpor suave que envolvia tudo.

A manhã decorreu quase por inércia. O Manuel apareceu, não por necessidade, mas por hábito — como os amigos que entram e saem do quotidiano sem anunciarem nada. Deram uma volta curta, duas sombras em movimento, um passeio sem destino que servia apenas para empurrar as horas para a frente. As conversas surgiam, mas nenhuma se fixava; eram notas soltas que mal tocavam a superfície do pensamento.

No fundo, havia outra presença a ocupar o dia — silenciosa, mas dominante. A Dila insinuava-se em cada pausa, em cada gesto distraído, como se o simples facto de não aparecer fosse o acontecimento principal. Procurava sinais onde não havia nenhum. Uma esquina, uma janela, um som que pudesse ser o seu riso. O vazio não incomodava; apenas adensava a expectativa.

À tarde, o calor puxou para os caminhos habituais: o monte, talvez, ou apenas um recanto mais fresco onde a sombra prometia algum descanso. Ali, sentado num silêncio que não doía, a mente vagueava com liberdade. Recordava fragmentos do dia anterior, pequenos detalhes que ganham importância agora — o modo como ela sorrira, a forma como escutava, o brilho quase involuntário que surgia no olhar quando falava.

A memória transforma-se num lugar onde era possível caminhar sem pressa. Havia um conforto estranho em reviver gestos que tinham acontecido há tão pouco tempo e que, no entanto, já pareciam indispensáveis. O mundo mantinha-se imóvel, como se aguardasse qualquer desfecho que só o coração conhecia.

O dia terminou com essa inquietação serena, a sensação de que algo estava para acontecer, embora ninguém soubesse quando. O futuro aproxima-se devagar, carregado de perguntas e promessas por cumprir. Ficou apenas o eco de uma certeza silenciosa: Agosto tinha começado, e com ele voltava a possibilidade — sempre renovada — de a ver novamente.


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