O Som que Falta
Sábado, 2 de Agosto de 1975
O sábado nasceu com uma claridade viva, daquelas que entram pela janela sem pedir licença e obrigam o corpo a despertar antes do pensamento. O dia anunciava-se simples, quase banal, mas Agosto tem o hábito de esconder pequenas reverberações por detrás das horas mais quietas.
A manhã passou tranquila, feita de gestos rotineiros e passos vagarosos. As ruas pareciam maiores ao fim-de-semana, como se a ausência de pressa abrisse espaço para ouvir o próprio silêncio. Nada de extraordinário aconteceu — apenas o deslizar suave das horas, como areia fina pelos dedos.
Contudo, havia uma falta subtil, quase um descompasso no ritmo interno: o som que não surgia, a voz que não aparecia, o riso que não cruzava o caminho. A ausência da Dila tornava-se uma nota prolongada no fundo de tudo, estendendo-se, sem ruído, por cada pedaço do dia.
À tarde, o calor apertava e levava para lugares conhecidos, procurando sombra e um pouco de vento. O monte, ou outro refúgio habitual, servia de cenário para pensamentos que se acumulavam discretamente. A mente não seguia uma linha recta; desenhava círculos, regressava aos mesmos pontos, revivia conversas, olhares, promessas não ditas. Era uma espécie de diálogo interior, sempre a dois, ainda que só um estivesse presente.
Por vezes, surgia a suspeita de que o coração estava demasiado atento — como se qualquer rumor distante pudesse ser confundido com passos dela. Era uma esperança terna, quase infantil, mas cheia de verdade. O amor adolescente tem esta mania de transformar o possível em certo e o improvável em quase garantido.
A tarde foi caindo devagar, tingindo o céu com aquela cor que só o Verão sabe inventar. Nada de relevante se passou, mas o dia não perdeu importância por isso. Guardou apenas uma inquietação mansa, a expectativa de que o amanhã pudesse trazer o que hoje faltou.
E no ar ficou uma promessa silenciosa, ainda sem forma: a de que Agosto continuava a abrir portas.
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