Primeiro sinal de resposta à carta
Domingo, 3 de Agosto de 1975
A tarde abriu-se em luz larga, ideal para pedalar sem destino. As bicicletas avançavam lado a lado — três rapazes, o Manuel, o Benjamim e ele — como quem percorre o Verão apenas para sentir o vento na cara. Era um movimento simples, quase automático, mas com aquela leveza própria dos dias em que nada se espera… e, por isso mesmo, tudo pode acontecer.
O fim da tarde trouxe a surpresa: a Odília surgiu no caminho, regressando a casa. Aproximou-se sem hesitação, anunciando logo a alegria da mãe — tinha nascido uma menina. O entusiasmo atravessou a conversa com a naturalidade de quem partilha uma felicidade verdadeira.
Mas havia mais.
Havia aquele bilhete entregue dias antes — e um pedido escrito nele, qualquer coisa que a tinha deixado inquieta. Ao falar disso, o rosto dela traía um receio leve, quase tímido, como se não soubesse ainda que resposta dar. Ele, por instantes, temeu ter sido imprudente. A consciência picou, breve e silenciosa, mas logo se ajustou; afinal, não era culpa, apenas vulnerabilidade.
A noite avançava vagarosamente quando o Benjamim surgiu com o violão ao ombro. As primeiras notas preencheram o ar do quarto, soltas, quase distraídas, até que a melodia despertou uma urgência conhecida: sair, caminhar, tentar a sorte. A ideia surgiu quase sem ser dita — ir até à casa da Odília. O Benjamim torceu o nariz, protestou por instinto, mas acabou por acompanhá-lo, como sempre.
Quando chegaram ao pátio, a luz fraca da entrada deixava ver a silhueta da Odília. Estava ali, quieta, como se também ela aguardasse qualquer coisa indefinida. Ele chamou por ela, baixinho, e ela voltou-se.
— Olá Dila… — disse ele, tentando parecer despreocupado, embora a voz lhe fugisse meio presa.
A resposta dela — “qu’est-ce que vous voulez?” — caiu como um susto divertido, meio teatral, meio desarmante. Fiquei atrapalhado por um instante, mas ela desfez o embaraço respondendo...
— Olá António. — respondeu ela, com aquele francês de brincadeira a querer aparecer no sorriso. — Vocês… que fazes aqui?
O Benjamim deu um passo atrás, como quem empurra a cena para o palco certo.
— Passeávamos… e pensei… pensei que talvez te pudesse ver se não estivesses a dormir.
— Estou sempre acordada a estas horas. — disse ela, com um tom leve, quase cúmplice. — Mas não esperava ver-te.
Ela cruzou os braços, não por frieza, mas por hábito.
— Hoje o dia foi uma confusão.
Franzi o sobrolho, curioso:
— Aconteceu alguma coisa?
Foi então que ela deixou o sorriso verdadeiro aparecer — o que quase nunca mostrava.
— A minha mãe teve o bébé.
Arregalei os olhos, surpreendido.
— A sério? Não sabía…
— Pois. Ninguém sabia ainda. — disse ela, quase em segredo. — É uma menina.
O silêncio que se seguiu não era vazio — era carregado dessa novidade doce, inesperada.
— Deves estar contente.
— Estou. — disse ela, com uma simplicidade luminosa. — Muito.
Houve um silêncio pequeno, só o suficiente para que o meu coração pudesse tropeçar uma vez.
— Por acaso já leste… o bilhete? — murmurei. — Não queria que te assustasse.
Ela baixou os olhos, mas não fugiu.
— Já li e não me assustou. Só… não sei ainda o que dizer.
Hesitei, procurando as palavras no escuro.
— Não tens de dizer nada hoje.
Ela levantou o olhar devagar, como quem pesa uma verdade.
— Então digo outra coisa.
— O quê?
— Que ainda não decidi se responderei ao bilhete… ou se te faço esperar mais um bocadinho.
O sorriso que deixou escapar era metade timidez, metade provocação ou algo mais — exacto demais para não deixar marca.
E antes que a conversa crescesse, uma prima apareceu à porta, chamando-a. A Dila despediu-se com um gesto breve, mas cheio de promessa, e desapareceu para dentro.
O silêncio que ficou depois da sua partida tinha um sabor doce e amargo. Havia a alegria da novidade, o nascimento da menina, e ao mesmo tempo a incerteza do bilhete, que ainda não tinha resposta. Fiquei ali, sentindo o coração bater mais forte, consciente de que algumas respostas só surgem com o tempo, e que a espera, por mais inquietante, também ensina.
Compreendi que amar é muitas vezes aceitar o silêncio do outro e respeitar o seu tempo. O sorriso e o gesto de despedida eram suficientes para deixar uma marca no meu coração, lembrando-me que ter alguém tão próximo e, ao mesmo tempo, distante, é um misto de prazer e expectativa.
Enquanto regressava, a memória daquele instante permanecia, doce e amarga ao mesmo tempo, ensinando que, na adolescência e no amor, as pequenas incertezas podem ser tão importantes quanto os momentos de alegria.