Receio ou esperança (?)
Segunda-feira, 4 de Agosto de 1975
O dia abriu-se com uma lentidão inquietante, cada instante parecia hesitar antes de se revelar. A companhia do Benjamim ofereceu-me distração, mas não conseguiu dissipar o turbilhão que a Dila deixara dentro de mim. O seu olhar, o peso das suas palavras, continuavam a pairar na minha mente, e sentia-me ao mesmo tempo leve e angustiado, preso entre a esperança e o receio.
Passei a manhã a observar sombras, a adivinhar gestos, a tentar antecipar sinais que ainda não existiam. Tudo me lembrava o domingo, o silêncio que ficou entre nós, a indecisão delicada que a sua voz deixara flutuar. Cada pausa, cada hesitação parecia prometer mundos e, ao mesmo tempo, adiar todos os desígnios. O meu coração batia mais forte com a simples lembrança de que nada estava decidido, que o meu gesto ainda aguardava reconhecimento, que a resposta podia surgir ou prolongar-se, silenciosa, nas horas que se estendiam diante de mim.
Essa promessa de espera, delicadamente ambígua, instalou em mim uma mistura de esperança e receio. Cada segundo parecia prolongar-se, cada lembrança do seu olhar tornava o coração mais leve e ao mesmo tempo mais ansioso. O simples acto de ela não rejeitar-me, de não se afastar, deixava-me à mercê de uma expectativa incerta: seria o meu gesto reconhecido, compreendido, correspondido? Ou permaneceria suspenso no limiar de uma resposta que tardava?
À tarde, o Benjamim e eu fomos para a Academia. Depois, mais tarde, jantei apressado e parti para casa da Dila, esperançado. Quando chegamos, a luz já se tinha apagado; a porta fechada parecia selar a incerteza que me consumia desde o domingo. Esperei, por instantes, quase sem respirar, mas nada se revelou além do silêncio da noite. Viemos embora, cada passo marcado pelo eco daquelas palavras que ela deixara flutuar: “ainda não decidi… ou se te faço esperar mais um bocadinho.”
Em minha casa, o Benjamim ainda permaneceu mais algum tempo, concentrado a preparar a lista para o campismo, mas eu mal escutava. A mente corria de volta àquelas linhas suspensas, à dúvida que ela deixara no ar, e percebi que a espera seria a minha companheira mais fiel durante toda a semana. Cada pequeno gesto dela, cada sombra na rua, cada sinal mínimo, seria um possível indício de uma resposta que eu ansiava e temia na mesma medida.
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