Entre a Espera e a Ausência
Terça-feira, 5 de Agosto de 1975
De manhã caminhei com o Benjamim, mas os papéis que devíamos entregar nunca encontraram destino. A rotina parecia querer desvanecer-se, enquanto a mente já voava para outros lugares, para a possibilidade de a ver. À tarde, com o Manuel, chegamos ao moinho, nosso refúgio antecipado do acampamento que pretendemos fazer. Cada gesto ao limpar o espaço parecia insuficiente, como se tentássemos preparar o mundo para um encontro que ainda não aconteceria. Voltamos para casa, mas a sensação de espera permaneceu, mais densa que o próprio ar.
O lanche passou-me quase despercebido. Saí com o meu pai, mas cada passo nas ruas ecoava o meu pensamento: e se eu a visse agora, mesmo que de relance, atrás de uma janela ou no passeio silencioso? No regresso, os olhos desviaram-se, como sempre, para a casa dela. Um vulto imaginário parecia brincar entre as sombras, e por um instante o coração acelerou, enganado pelo desejo.
Jantei e refugiei-me no quarto. As paredes conheciam o meu silêncio, o meu coração, a febre de cada gesto que não dei. Foi então que percebi, com uma pontada de frustração e desejo, que tinha esquecido de ir à noite à casa da Odília. Todo o dia pareceu desabar em arrependimento e esperança simultaneamente.
No silêncio desse esquecimento, senti algo novo a instalar-se: a dúvida. Não é dúvida sobre ela, nem sobre o que sinto, mas sobre a resposta que ainda não chegou. A carta, o bilhete, as palavras deixadas nas suas mãos flutuam no ar, e cada minuto que passa é uma ponte entre a esperança e a ansiedade.
O coração acelera com a lembrança de cada gesto, de cada olhar que ela me ofereceu. Mas, ao mesmo tempo, pesa com o silêncio que se prolonga, e uma inquietação nova se instala: será que ela sentiu o que eu queria transmitir? Será que o seu pensamento me contempla da mesma forma que eu penso nela?
E assim o dia termina com um sabor agridoce. A febre do amor continua viva, mas agora temperada por uma incerteza delicada, quase elegante, que me obriga a esperar e a imaginar, a sonhar e a hesitar. Cada instante sem resposta transforma-se em suspense, e cada pensamento nela é uma promessa de tudo o que ainda poderá acontecer.
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