Vislumbres e Esperas

Quarta-feira, 6 de Agosto de 1975

A manhã passou lenta, mergulhado na leitura de um livro que me transportava para outros mundos, mas que não conseguia afastar completamente o turbilhão de pensamentos que insistia em girar à volta da Dila. Havia uma quietude confortável, sim, mas também uma inquietação silenciosa, aquela que nos acompanha quando o coração não se aquieta, quando se sente uma falta que não se pode nomear.

À tarde, Manuel e Benjamim estiveram em minha casa, trazendo consigo a familiaridade e a leveza da amizade. Entre jogos, conversas e pequenas travessuras, senti a mistura agridoce da camaradagem: alegria genuína temperada pelo desejo de que a Dila estivesse ali também, de alguma forma presente, mesmo que só na minha imaginação. Cada risada era acompanhada de um pensamento furtivo nela, cada gesto meu e deles parecia subitamente ganhar outro significado quando eu imaginava o seu olhar sobre nós.

À noite, o Benjamim veio ter comigo, e juntos dirigimo-nos à casa da Dila, carregando a expectativa quase palpável de a ver, de sentir a sua presença sem sermos notados. Não a encontrando do lado da cozinha, um impulso impensado levou-me a espreitar pela janela da sala. E lá estava ela, a menina nos braços, serena e bela. Um calor súbito subiu pelo meu peito, uma mistura de alegria intensa e ternura que quase me tirava o fôlego. Ao mesmo tempo, senti uma ponta de receio — aquele medo subtil de que o futuro, por mais promissor que pareça, pudesse trazer obstáculos inesperados, ou que a própria vida nos separasse daqueles momentos de pura beleza.

Para minha surpresa, o Benjamim revelou que obtivera autorização dos pais para acampar, embora apenas num fim de semana. A notícia trouxe uma centelha de esperança, a promessa de liberdade e de aventuras partilhadas. Mas, mesmo no êxtase da novidade, não pude deixar de sentir a inquietação que acompanha o desejo: a antecipação do que virá e a consciência de que cada instante é precioso, efémero, e que o que hoje se apresenta radiante pode amanhã tornar-se distante.

Assim terminei o dia, com a mente e o coração a oscilar entre contemplação e ansiedade, entre a felicidade pura de a ter visto e o receio silencioso do que ainda se avizinha. Senti, mais do que nunca, que a Dila habita os meus pensamentos e que, independentemente do futuro, cada momento vivido com ela é um tesouro guardado no fundo da minha alma.


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