Vergonha

Quinta-feira, 7 de Agosto de 1975

A manhã nasceu clara, e eu levantei-me cedo para seguir o meu pai até à Serra da Pia. O vento frio das alturas mexia com os meus sentidos e com o pensamento que teimava em não me largar: a Dila. Havia beleza na paisagem, mas também um vazio dentro de mim, uma inquietação que só se preenchia com a imagem dela, mesmo distante, mesmo ausente.

À tarde, a feira trouxe o calor da família: o meu pai, a minha mãe, a avó, as minhas irmãs mais novas, a irmã casada e a sobrinha. Partilhamos risos e conversas, mas o meu coração estava noutro lugar, pendurado na esperança de a ver, no desejo secreto de cruzar o olhar dela, mesmo que por um instante. Cada gesto, cada movimento, trazia a lembrança da sua presença que não estava ali, e a saudade apertava-me o peito como uma mão invisível.

No fim do dia, com o Benjamim, fomos à Academia. Depois de jantar, não consegui resistir ao impulso de ir à casa da Odília. A intenção era simples — apenas vê-la — mas o que fiz transformou-se em vergonha: espreitei por uma janela. Senti-me pequeno, vil, consciente de que tinha invadido um espaço que não me pertencia. A culpa queimava-me por dentro, misturada com o fascínio e a saudade que me consumiam.

Era um turbilhão de emoções: a expectativa de a ver, o receio de ser descoberto, o arrependimento por cada gesto impróprio. Cada segundo junto da sua casa lembrava-me que o amor não pode nascer de actos egoístas, e que a liberdade e a privacidade do outro são sagradas.

Prometo a mim mesmo, aqui e agora: nunca mais deixarei que a minha curiosidade ou desejo viole a vida de outrem. Que o meu amor seja silencioso, paciente, respeitoso. Que a minha saudade seja só um fio que me liga a ela sem machucar.

E nesta mistura de culpa e esperança, percebo algo profundo: o amor verdadeiro, mesmo jovem e incerto, não se mede pelo que conseguimos tirar ou pelo instante que roubamos; mede-se pelo que conseguimos cultivar dentro de nós — a capacidade de esperar, de admirar à distância, de respeitar e proteger a liberdade de quem amamos. Hoje aprendi, com a vergonha e a saudade, que amar não é possuir, mas cuidar; não é invadir, mas contemplar; e que, no silêncio da nossa própria consciência, reside a pureza de um sentimento que não fere, que não pressiona, que não desaparece.

Assim terminei o dia, de peito apertado, mas com a certeza de que o meu amor poderá crescer limpo, forte e digno, como uma promessa que se cumpre só com paciência, respeito e ternura.


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