A quietude dos dias sem nome
Quinta-feira, 6 de Maio de 1976
Hoje foi um dia sem história, desses que não levantam a voz nem deixam rasto no chão. A manhã abriu-se devagar, sem urgência, e a leitura voltou a ser o meu refúgio mais seguro. Um livro na mão, uma cassete a rodar, e o mundo exterior ficou reduzido a um rumor distante, quase indecifrável. Não foi fuga; foi escolha. Há momentos em que fechar a mente é uma forma legítima de sobrevivência.
As horas passaram sem resistência. Não houve pensamentos incómodos, nem memórias a pedir lugar. Apenas essa sensação estranha de suspensão, como se o tempo tivesse decidido respeitar-me e andar em bicos de pés.
A tarde trouxe as aulas, previsíveis como o caminho de regresso a casa. Professores a repetir gestos, palavras gastas, rotinas sem alma. Eu estive lá, presente no corpo, ausente no resto. Cumpri. Às vezes viver é só isso: cumprir o mínimo para que o dia não se revolte contra nós.
Voltei para casa com a mesma leveza com que saí. Nem peso, nem entusiasmo. Um equilíbrio morno que não aquece nem arrefece.
À noite, como sempre, recorri ao meu confidente silencioso. O Diário não exige emoção, aceita o banal, acolhe o nada. É nele que deposito aquilo que não sei se sinto, mas sei que existe. Escrever não esclarece tudo, mas impede que o pensamento apodreça em silêncio.
Hoje não houve revelações, nem saudades gritantes, nem promessas ao futuro. E talvez isso seja, por si só, um pequeno descanso. Amanhã será outro dia. Não melhor, não pior. Apenas outro. E isso, curiosamente, já é alguma coisa.
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