Um passado que já não chama
Quarta-feira, 5 de Maio de 1976
Um novo dia. Uma nova aventura — ou talvez não. Há manhãs que nascem com essa dúvida agarrada ao corpo. Cumpri a rotina sem pensar nela: preparar os livros para a tarde, alinhar cadernos, repetir gestos já gastos. Depois sentei-me a desenhar. Voltei ao desenho como quem regressa a um lugar antigo onde ainda reconhece o cheiro das paredes. O lápis deslizou com mais sinceridade do que os pensamentos. Não desenhei nada de extraordinário, mas desenhei. E isso bastou.
A tarde no liceu decorreu no ritmo habitual, esse andamento seguro e previsível que os professores dominam como quem rege uma música que já não precisa de ensaio. Aulas sem sobressaltos, palavras que entram e saem sem se fixarem muito. Cumpri presença. Às vezes é o máximo que se consegue.
Ao fim da tarde, no regresso a casa, vi a Ana Maria, a irmã da Dila. Ao ver-me, acenou. Um gesto simples, breve, quase inocente. Mas há gestos que transportam mais passado do que parecem. Por um instante, não foi ela que vi — foi um lembrete. A prova silenciosa de que, não há muito tempo, existiu alguém capaz de me fazer pulsar o coração.
Agora, esse coração sente-se frio. Não dorido. Não magoado. Apenas inerte, como um motor desligado que ainda conserva o calor antigo, mas já não responde à ignição. Não houve tristeza naquele momento. Apenas a constatação crua de que certas emoções não desaparecem de repente — arrefecem devagar.
Segui caminho. O aceno ficou para trás, suspenso no ar da rua, sem pedido de resposta. E eu continuei, com a estranha serenidade de quem sabe que já sentiu tudo o que precisava sentir. Talvez um dia volte. Talvez não. Hoje, ficou apenas o registo de um passado que já não chama.
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