O peso exacto das horas
Terça-feira, 4 de Maio de 1976
Foi um dia cheio de rotinas cumpridas. E só isso. Nenhuma história para contar, nenhum acontecimento digno de memória, nenhuma dor que reclamasse atenção, nem sequer uma alegria que merecesse ser guardada. Um dia neutro, quase impessoal, como tantos outros que passam por nós sem pedir licença nem deixar rasto.
O tempo arrastou-se num tic-tac monótono, implacável. Segundo a segundo, avançou com uma lentidão quase provocadora, como se quisesse lembrar-me que o fim do dia ainda estava longe e que não havia atalhos possíveis. Cada minuto parecia consciente de si próprio, pesado, insistente. Não doeu — cansou.
Não houve pressa. Não por virtude, mas por impotência. Não tinha poder para acelerar nada, nem para saltar etapas. O dia não se deixa negociar. Ou se vive, ou se espera que passe. E eu fiz o que estava ao meu alcance: deixei-me embalar nesse tempo sem tempo, nessa sucessão de horas que não conduzem a lugar algum.
Foi um dia sem resistência. Não lutei contra ele, mas também não o abracei. Aceitei-o. Como se aceita uma estrada longa quando não há desvio possível. Talvez haja uma aprendizagem silenciosa nestes dias vazios: a de perceber que nem sempre estamos a construir algo visível. Às vezes estamos apenas a aguentar. E, estranhamente, isso também conta.
Quando o dia terminou, não senti alívio nem frustração. Apenas o cansaço natural de quem atravessou o tempo a pé. Amanhã virá outro dia. Diferente ou igual, pouco importa agora. Hoje ficou para trás sem se despedir. E eu deixei-o ir.
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