Onde o ruído aprende a calar

Segunda-feira, 3 de Maio de 1976

A manhã repetiu-se como um ritual já gasto, mas necessário. Preparei os livros para a tarde sem grande convicção, como quem cumpre um gesto mais por hábito do que por esperança. Li. Ouvi música. Essas duas continuam a ser as únicas actividades que não me exigem esforço para existir nelas. Não pedem resultados, não cobram promessas. Limitam-se a estar.

A tarde no liceu foi curta e pouco produtiva. Apenas duas aulas, sem chama, sem impacto. Os estudos ficaram a meio caminho entre a obrigação e o cansaço. Senti cedo que ali já não estava inteiro. E quando isso acontece, ficar é apenas insistir no erro. Saí. Não fugi — afastei-me. Há diferença, embora poucos a reconheçam.

Caminhei até ao jardim de S. Lázaro, esse intervalo verde em frente à Biblioteca Municipal, como se a proximidade dos livros emprestasse dignidade ao silêncio. Sentei-me num banco, sem relógio, sem destino. E deixei a mente fazer aquilo que melhor sabe quando não é apertada: vaguear.

O chilrear dos pássaros não competia com nada. O vento nas folhas não tinha pressa. As pessoas passavam — rostos anónimos, vidas inteiras resumidas a segundos — e nenhuma exigia a minha atenção. Pela primeira vez em muito tempo, não precisei de pensar em nada concreto. O pensamento dissolveu-se nos sons, como açúcar em água morna.

Foi uma limpeza espiritual. Simples. Sem misticismos. Uma dessas limpezas que não deixam cheiro, mas tiram o peso. Senti-me mais leve, quase surpreendido por ainda ser possível sentir leveza. Como se o passado existisse apenas até aos últimos passos que dei ao entrar no jardim. Dali para a frente, tudo parecia suspenso. Não resolvido — suspenso. E isso, naquele momento, foi suficiente.

Levantei-me algum tempo depois sem ter decidido levantar-me. Voltei diferente, embora por fora nada denunciasse a mudança. Talvez seja assim que as verdadeiras transformações acontecem: discretas, silenciosas, sem testemunhas. Amanhã o mundo continuará igual. Eu, talvez, não.


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